Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Documentário marca o encontro de Tomie Ohtake com Tizuka

Relação próxima entre as duas é marca registrada de 'Tomie'

Camila Molina , O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2014 | 03h00

Depois da estreia de Gaijin - Caminhos da Liberdade (1980), a cineasta Tizuka Yamasaki saiu para jantar com uma turma em um sushi bar na Rua dos Estudantes, em São Paulo. Na ocasião, conta, conheceu Tomie Ohtake. “Ela estava tão entusiasmada com o filme e eu me sentindo honrada, era meu primeiro longa”, relembra, carinhosamente, Tizuka. Os filhos da artista, os arquitetos Ruy e Ricardo, também já foram seus professores, quando, na década de 1960, a cineasta quis estudar arquitetura. Mas foi apenas recentemente, durante a realização do documentário Tomie, que a diretora teve a oportunidade de realmente se aproximar do universo da pintora e escultora.

“Não me interessava falar sobre a obra da Tomie, porque já é muito documentada. Queria aproveitar uma relação pessoal com ela, que é muito simpática”, explica Tizuka Yamasaki. Fora de seu “métier”, a ficção, a cineasta lançou-se, em 2008, ao desafio de retratar a Tomie “irreverente”, que poucos, os mais íntimos, conhecem. E muito mais. O filme, inédito, a ser lançado na segunda-feira, dia 15, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, além de ser reverência sensível a uma das mais importantes criadoras da arte brasileira, hoje, aos 101 anos, marca o encontro de duas forças.

Tomie Ohtake afirma que saiu do Japão para “poder pintar”. “Mulher com minha idade tinha de casar”, diz a artista em uma das passagens mais bonitas do documentário inédito de Tizuka Yamasaki sobre a pintora, escultora e gravadora que acabou de completar 101 anos, no dia 21 de novembro. Nas docas do porto de Santos, Tomie lembra que em 1936, quando desceu do navio e viu o mar, o sol era tão forte que tudo ficou com “gosto de amarelo”. Nesse mesmo dia, seu irmão, que já vivia no Brasil, a levou para comer um bife a cavalo, algo que ela não conhecia.

“Gostei de andar com a Tizuka (no porto). Não gosto muito de participar de filmes”, diz Tomie e depois, sorri. No ateliê, em sua casa, no Campo Belo, ao lado da nova série de pinturas que vem criando este ano, a artista, de poucas palavras, fala ainda que filmando, ela “perde a liberdade”. A cineasta concorda: “É diferente se relacionar com uma pessoa e filmar uma pessoa”. No caso da filmagem nas docas, a diretora usou uma teleobjetiva “para afastar bem a câmera”. “Uma das coisas que fiz foi entrar no filme para ficar mais uma conversa do que um depoimento. Queria que Tomie ficasse à vontade. Queria tirar, exatamente, as entrelinhas. Eram mais importantes as entrelinhas do que o depoimento em si”, continua Tizuka.

O porto de Santos, que abre a narrativa, é uma localidade simbólica por vários motivos. O projeto de Tomie, documentário de 35 minutos, nasceu em 2008 na época das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil. Depois de já ter feito Gaijin e sua sequência, Tizuka Yamasaki conta que a única personalidade que gostaria de abordar em uma nova obra com referência ao Japão seria Tomie Ohtake. “Na verdade, ela não é imigrante, mas carrega a fisionomia japonesa”, diz a diretora sobre a artista, naturalizada brasileira.

Nas docas, a cineasta relacionou aquele ambiente portuário onde Tomie chegou, aos 22 anos, com a ideia de fortaleza que identifica na produção e trajetória da pintora e escultora. “As cores, as ferragens, aquele amarelo, laranja, a força, me lembrou muito a obra da Tomie.” Na praia do José Menino, em Santos, ainda, a artista inaugurou, em 2008, ao lado do príncipe Naruhito, a grande onda vermelha verticalizada que se tornou um dos monumentos de comemoração da presença japonesa no País. No documentário, a escultura torna-se emblemática com as belas tomadas feitas pelo fotógrafo André Horta. Outra ousada obra pública, no interior do Auditório do Ibirapuera projetado por Niemeyer, também é um destaque no filme.

A construção de um retrato denso de Tomie Ohtake vai se fazendo de forma sutil, natural, ao longo do documentário de Tizuka Yamasaki. Entre frases curtas, a carismática artista coloca, pontualmente, sua maneira profunda e livre de lidar com questões complexas. Como sua relação com o zen: “No Japão, é tudo zen. Falam zen, zen. Eu nem pensava nisso. Zen é o que você está fazendo. É o movimento de uma pessoa”. Ou como o círculo é mais do que uma forma, um símbolo de persistência, resistência e paz.

Mesclados às falas de Tomie, depoimentos críticos de Paulo Herkenhoff, Agnaldo Farias e Miguel Chaia traçam temas importantes na obra da artista, como o diálogo entre o Oriente e o Ocidente em sua poética abstrata; a dimensão cósmica na interpretação de suas formas e gestos; e a dualidade de ser delicada e forte ao produzir nas escalas que vão do íntimo ao monumental. De sua arte, ainda, Tomie cita o apreço pelo pintor Mark Rothko e reforça a atitude autônoma que tomou desde o início de sua carreira, iniciada tardiamente, quando tinha quase 40 anos.

Entretanto, são as passagens de intimidade com a artista que dão a verdadeira tônica do documentário. Um dos religiosos almoços de domingo com a família é aberto a todos ao ser filmado, assim como um dos jantares que, mensalmente, ela convoca na Galeria Deco para conversar com amigos. “Tomie é muito afetiva”, resume Tizuka, que registrou, em 2013, a grande fila de pessoas a cumprimentar a artista na inauguração da exposição de seu centenário de vida. Tomie os recebeu, cada um, pelas mãos. Um bonito desfecho para a obra.

TOMIE 

Dir.: Tizuka Yamasaki. Gênero: Documentário (Brasil/ 2014, 35 min.). Classif.: Livre. Lançamento: 2ª, 20h, MIS (Av. Europa, 158). Grátis.

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