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Documentário 'Libelu – Abaixo a Ditadura' é um resgate necessário da história

Diógenes Muniz é o mais jovem concorrente entre os diretores que participam da competição brasileira do 25.º É Tudo Verdade; O longa de 90 minutos terá sessão às 21h desta quarta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 14h24

Aos 34 anos, Diógenes Muniz é o mais jovem concorrente entre os diretores que participam da competição brasileira do 25.º É Tudo Verdade. Tremenda responsa - aos 21, jovem repórter na Folha de S. Paulo, ele viveu uma experiência enriquecedora (transformadora?) ao participar da Semana Bergman, na Ilha de Faro, na Suécia. No próprio jornal, ele foi direcionado para o audiovisual – na TV Folha – e foi assim que o cinéfilo, ao longo dos anos, virou diretor.



Diógenes concorre com Libelu – Abaixo a Ditadura. O longa de 90 minutos terá sessão às 21h desta quarta, 30, no site do Festival Internacional de Documentários. Na quinta, 1.º, nova apresentação, às 15 h, seguida de debate com mediação de Neuza Barbosa, às 17h. O filme começou a ser gestado em conversas de corredores pelas redações por onde Diógenes passou. 'Fulano era Libelu'. Quantas vezes ouviu isso? Ele foi atrás e descobriu que era uma histótria que valia contar. “Um resgate necessário”, destaca. Liberdade e Luta foi umas tendência do movimento estudantil brasileiro nos anos 1970, de tendência trotskista e ligada ao jornal O Trabalho, que era editado na época pela Organização Socialista Internacional, OSI.

Na época em que o General Ernesto Geisel era presidente (1974-79) e acenava com uma abertura lenta e gradual, a Libelu incendiava as assembleias estudantis com a palavra de ordem 'Abaixo a ditadura'. Participavam do movimento o economista Eduardo Giannetti, os jornalistas Reinaldo Azevedo, Laura Capriglione, Demétrio Magnoli e Cadão Volpato (esse, uma figura multimidiática, pois é também músico, escritor e apresentador, etc), mais o ex-ministro Antônio Palocci. Nós que nos amávamos tanto. Nós que amávamos a revolução. Diógenes admite que chegou a pensar em incluir imagens do filme cultuado de Ettore Scola, que, não por acaso, é um de seus preferidos. Desistiu porque achou que era melhor que o próprio espectador fizesse a ilação. Mas acrescenta imagens de outro clássico italiano – O Incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli.


 


A cruzada nada heróica de Vittorio Gassman. “Nesse caso tinha tudo a ver, porque o canto de guerra do grupo no filme era Branca/Branca/Branca, Leon/Leon/Leon , e o Leon tinha tudo a ver com Trotski.” A revolução permanente. Nunca mais – a canção de Odair José, presente na trilha.'Eu agora sou diferente.' Diógenes e sua pesquisadora, Bianka Vieira – que participará do debate de quinta -, fizeram cerca de 80 entrevistas para o filme, que começou a tomar forma há cinco anos. Diógenes ficou muito marcado pelas manifestações de 2013. Parecia que tinham tudo a ver com os protestos de 1977. Depois ele descobriu que não e, até por isso, a recuperação dessa história tornou-se mais urgente. A Libelu reergueu o movimento estuidantil, era um movimento de jovens. Os incendiários de 40 e tantos anos atrás olham com certa ironia, mas também com afeto, seus verdes anos.

Quando o filme começou a surgir, não havia Jair Bolsonaro no horizonte. O País mudou muito nos últimos anos e as reflexões dos antigos libelus ajudam a entender as mudanças. Diógenes filma as entrevistas todas do mesmo jeito, utiliza material de arquivo. Todas, não – a de Palocci foi filmada no apartamento em que ele cumpre prisão domiciliar. “Fiz seis campanhas e ganhei as seis. Pode ser que, se não fizesse caixa 2, não teria vencido nenhuma, mas seria uma pessoa melhor.” Diógenes nunca pensou em recorrer a analistas políticos – a crítica, a autocrítica, transparece em falas como a do ex-ministro.

O diretor começou a entrevistar o núcleo duro – dirigentes – da Libelu. Os radicais que não foram para a guerrilha. Achou que o documentário não seria completo sem a base. Tudo muda, todos mudam, mas certas coisas são permantes. A revolução? Diógenes integra atualmente a equipe do programa Conversa com Bial, da Globo. Trabalha com dois importantes documentaristas - Ricardo Calil e Renato Terra, cujo filme mais recente, Narciso em Férias, sobre Caetano Veloso, foi a Veneza. Concorda com o repórter - Bial está criando um potente grupo de documentaristas. E ainda tem a chancela do Canal Brasil. Aquela lâmpada, marca do canal, tem estado presente, iluminando cada vez mais a abertura dos filmes na produção brasileira recente.

 

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