Documentário lembra "profeta das águas"

É uma história tão extraordinária que já virou novela, embora a Globo, todas as noites, informasse nos créditos de Fogo sobre Terra que a trama era puramente ficcional, nascida da imaginação da autora, Janete Clair. Mas não era. A Divinéia da novela era, na verdade, Rubinéia, à beira do Rio Paraná, última cidade de São Paulo no rumo do oeste, na qual terminavam os trilhos da estrada de ferro Araraquarense. E Pedro Azulão, o personagem interpretado por Juca de Oliveira, era Aparecido Galdino Jacintho, o chamado profeta das águas. É sua história que Leopoldo Nunes quer agora recontar, não por meio de uma ficção descabelada, mas com todo o rigor de um documentário bem construído. Eram outros tempos. Indiciado em inquérito, Galdino foi denunciado por práticas de curandeirismo, incitação à revolta e lesões corporais contra a autoridade constituída. Absolvido por falta de provas na Justiça civil, foi enquadrado na famigerada Lei de Segurança Nacional. Afinal, eram os anos 60, na época da ditadura e Galdino, sem ser julgado, passou sete anos internado no manicômio judiciário. Durante mais dois havia ficado preso ilegalmente na casa de detenção de Rubinéia. Nove anos de reclusão, no total. Ele só foi libertado após um intenso movimento encampado pela Ordem dos Advogados do Brasil, pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiciose de São Paulo, pelo Comitê dos Direitos Humanos e outras entidades que atuavam em defesa de direitos individuais e políticos. Seu crime foi ter ido contra o progresso. Galdino, um ex-boiadeiro, tornou-se profeta. Arrebanhou um grande número de fiéis, preparando-os para a iminente chegada do juízo final. O apocalipse, para ele, começava a ocorrer no final da década de 60, com o anúncio da inundação de Rubinéia e das terras vizinhas, todas exploradas por pobres lavradores, pelas águas da represa de Ilha Solteira. Ao ir contra o projeto, Galdino virou um caso de segurança nacional, mais do que de polícia. De nada adiantava ter o apoio de intelectuais como o poeta Carlos Drummond de Andrade, que escreveu uma crônica-poema (Poetas amigos que eram placa de rua em Rubinéia, que tal a vida aí embaixo do lago?) que terminava com a afirmação de que a cidade era a Passárgada de Manuel Bandeira, oculta em 8 milhões de metros cúbicos de água. Drummond voltou ao assunto em outra crônica (Que É Rubinéia, onde Fica?), que era um veemente protesto contra a submersão de terras e pessoas em sacrifício pela industrialização do Brasil. Por que contar, ou recontar essa história? "Porque por meio dela é possível contar um pouco da história do Estado e do País", diz o diretor Leopoldo Nunes, que estudou cinema na famosa Escola de Comunicações e Artes da USP e na Escola de San Antonio de Los Baños, em Cuba. Autor de vários documentários, Nunes quer contextualizar, histórica, social e geograficamente, a história de Galdino. Por meio dela pretende reconstruir a saga do mítico oeste paulista e também mostrar e discutir os danos ambientais causados pela política desenvolvimentista do Brasil Grande, nos anos 70. Finalmente, acha que o caso de Galdino é exemplar para se discutir como os regimes autoritários reagem ao messianismo, aniquilando-o por meio do arbítrio e da violência. Para concretizar o projeto, Nunes associou-se à Taus Filme Vídeo e Produções, empresa criada em 1987 pelo cineasta Reinaldo Volpato, que terá crédito também como montador em Galdino - O Profeta das Águas. Ele dará voz ao próprio Galdino, que ainda está vivo e continua fazendo sua pregação, alertando para o final dos tempos. Mas o documentário orçado em R$ 1,4 milhão pretende ir além da reconstituição memorialística. Nunes vai valer-se de dramatizações e de matérias de arquivo, como reportagens de jornais e revistas, de cinejornais e fotografias. Ele encontrou farto material de pesquisa nos arquivos do Estado, que acompanhou todas as etapas do processo contra Galdino, até a sua libertação. Interessados em investir na produção, inscrita nas leis de incentivo, devem contactar a produtora Taus, nos telefones 0--11 3864-6197, 9222-3446 e 3081-7353.

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