Rafael Ianni
Rafael Ianni

Documentário 'Jair Rodrigues, Deixa Que Digam' desvenda a ambiguidade do personagem

Filme estará no Festival É Tudo Verdade às 15h desta sexta; às 17h, haverá um debate com o diretor Rubem Rewald

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 09h00

Jair Rodrigues foi ator de Super Nada, o longa de Rubem Rewald. Era a alegria do set. Chegava pela manhã, às vezes vindo diretamente de algum show, na maior pilha. Sempre feliz. No lançamento do DVD, reencontraram-se - o diretor e seu astro-cantor. Jair lançou a ideia de fazerem um filme juntos, e acrescentou - “Tenho muitas histórias para contar.” Não teve tempo. Semanas depois, ele morreu. A ideia ficou com Rewald. Ele contactou a família, teve todo o apoio.



Um dos grandes sucessos de Jair Rodrigues foi com Deixa Que Digam, que ele cantava fazendo aquele gesto (libidinoso?) com a mão. Virou o título - Jair Rodrigues, Deixa Que Digam passa às 3 da tarde desta sexta, 2, no site do Festival Internacional de Documentários. Às 17, haverá um debate com o diretor. Nesse momento de pandemia, o povo do cinema está tendo de se reinventar. A situação da Cinemateca Brasileira - pela qual Rewald tem sido um dos batalhadores - está em banho-maria. “Isso significa que está mal. O governo não está tomando nenhuma atitude e a memória audiovisual do País segue ameaçada.” A situação da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual está muito melhor. Contra tudo, e todos, Rewald está numa fase de grande produtividade.

Além de seu documentário no É Tudo Verdade, terá outro filme na Mostra, ainda este mês - www.eagoraoque? -, em parceria com Jean-Claude Bernardet. “Não sou mais garoto, tenho 55 anos e não dá mais para esperar. Os filmes, em geral, demoram anos para ser feitos. Desisti de esperar pelas condições ideais, faço do jeito que é possível, com parcerias.” Jair Rodrigues, o filme, encerra-se com uma citação de Maiakovski. “Dizem que no Brasil há um homem feliz.” Se depois de assistir aos cerca de 100 min do filme o espectador não achar que a definição cabe como luva em Jair Rodrigues, então Rewald terá fracassado. Mas ele não fracassou, pelo contrário. Desde o começo, Rewald sabia que o filme teria de ser atravessado pela energia do cantor. Um filme movimentado, dinâmico. Quando não está no palco, cantando, Jair está contando histórias e o próprio filho, Jairzinho, aparece como um dos narradores, contando outras histórias. Rewald admite que fez o filme para desvendar o que chama de ambiguidade do personagem.

Como esse cara que estourou nos anos 1960, em plena ditadura militar, conquistando o público dos festivais de MPB e dividindo a cena com Elis Regina no programa O Fino da Bossa, conseguia ser alegre daquele jeito? Rewald admite que não conseguiu matar a charada. “Fiz uma pesquisa muito detalhada, entrevistei meio mundo da música e nunca encontrei uma pessoa para dizer seja lá o que fosse contra o Jair Rodrigues. Quando se faz um filme desse a gente vai em busca da contradição, do lado sombrio. Não encontrei nada. Jair era, é, uma unanimidade. E daí? Não desisti de fazer o filme, mas também não queria que fosse laudatório. A solução foi fazer dessa utopia musical do Jair um contraponto do Brasil atual. Minha ideia é que as pessoas, vendo o filme, se deem conta de como já fomos mais felizes.”


 


Impossível não pensar em Wilson Simonal, cujo estouro foi contemporâneo ao de Jair. Simonal foi acusado de dedo duro da ditadura, a carreira entrou em declínio. Um importante crítico musical, Nelson Motta, diz que foi um caso lamentável de racismo. Jair, como Pelé, que aparece no filme, era outra coisa. Negros de alma branca. Uma definição dessas hoje em dia é capaz de provocar um vendaval de críticas. Jair seria, então, alienado. Seria mesmo? Os músicos Rappin' Hood e o Salloma Salomão estão presentes para resgatar a ancestralidade brasileira - a africanidade - de Jair e dizer que ele podia não carregar bandeiras, mas se manifestava através da música. O próprio Geraldo Vandré reagiu mal à proposta do produtor musical Solano Ribeiro para que Jair cantasse Disparada no Festival da Record de 1966. “Ele vai estragar minha música!”, teria dito. Ninguém cantou melhor que ele. Jair não fazia discursos contra o racismo nem contra a ditadura, mas quando o tema surge no filme e ele canta, com garra e paixão, “Trabalha, trabalha, negro”, a cena é de arrepiar.

O homem que ria tinha seus momentos de tristeza. Ao falar da mãe, da dureza na lavoura, da qual a família tirava o sustento. Face à dor, ele fazia piada. Sua homenagem a Elis, quando a parceira de dupla morreu, em 1982, foi típica. Como se estivesse conversando com ela no palco, ele diz - “Vai, minha querida, que Deus está te esperando, mas diz pra ele que eu ainda quero ficar mais um tempo por aqui.” O Senhor ouviu sua prece. Jair Rodrigues morreu em 2014, aos 75 anos.

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