Documentário investiga o mistério das cartomantes

O conto A Cartomante, de Machado de Assis, tornou-se uma obsessão para a psicanalista Renata Salgado: intrigava-a a forma como o escritor transformava uma simples "abertura de cartas" na visualização de algo implacável que se manifestava nas banalidades do cotidiano. Teriam essas mulheres um dom especial?, questionava-se a psicanalista. Decidida a investigar, Renata descobriu um rico imaginário que envolve essa atividade, um material tão farto que convenceu o cineasta João Jardim e o produtor Flávio Tambellini, da Ravina Filmes, a se envolverem no projeto de um documentário - nascia Cartomantes, longa que deverá ser rodado nos próximos meses."Vamos destacar o lado humano e romântico dessa prática, mostrando como as pessoas procuram, nesse tipo de encontro, uma palavra que consiga lhe restituir a paz ou a confiança na vida", comenta Jardim, autor, ao lado de Walter Carvalho, de Janela da Alma, um dos três documentários mais vistos no Brasil nos últimos dez anos, com mais de 140 mil espectadores. Para isso, estão sendo feitas pesquisas entre as cartomantes do Rio, a fim de se descobrir como elas extraem dessa atividade seu principal sustento e de sua família."Trata-se de uma atividade essencialmente feminina, o que vai ser uma das principais características do documentário", acredita Renata que, em sua procura, encontrou tipos diversos de cartomantes (leia mais). "Queremos discutir também a paixão, uma vez que as pessoas sempre questionam sobre o amor na leitura das cartas."Renata tinha se interessado por outras atividades que também prometem revelar o futuro, mas preferiu concentrar-se no trabalho das cartomantes. "A leitura dos búzios não oferece muitos detalhes, enquanto o tarô envolve a interpretação das cartas", afirma. "Eu buscava o mistério da adivinhação que rodeia as cartomantes, especialistas em orientar o futuro a ser revelado pelas cartas."Em contato com diversas cartomantes, a psicanalista conseguiu montar seu perfil básico: não têm uma idade média, mas raramente são muito jovens ("São sempre mulheres maduras, algumas viúvas ou com algum caso de amor mal resolvido"), com discursos diferentes ("As formas de sedução ao ler as cartas variam"), enfrentam problemas financeiros ("Quase todas têm contas atrasadas") e pessoais ("Uma delas tem um filho internado em um hospital psiquiátrico"), também não formam uma categoria organizada ("O misticismo pede uma independência de movimentos") e, apesar de a maioria pertencer à classe média baixa, existem algumas que transitam nas áreas nobres da cidade ("São mulheres mais instruídas e que apresentam bom nível social").Renata Salgado observou um certo clima de decadência entre as cartomantes. "Não se trata de pobreza, mas de um universo que resiste ao progresso científico e tecnológico", comenta a psicanalista que, entre as pesquisadas, descobriu uma mulher que abria cartas para a escritora Clarice Lispector, cujo especial interesse pelo mistério do futuro inspirou sua ficção - Macabéa, de A Hora da Estrela, por exemplo, enfrenta um triste fim momentos depois de consultar uma cartomante. Algo semelhante à conclusão do clássico conto de Machado de Assis.A inspiração literária, aliás, fonte primeira de todas as pesquisas, também vai colaborar na elaboração do roteiro, pois o perfil apresentado das cartomantes reflete a realidade: há desde a figura misteriosa retratada por Machado e a que dispara alertas quanto ao futuro (em A Falecida, de Nélson Rodrigues, Madame Crisálida pede a Zulmira para tomar cuidado com uma mulher loura que vai surgir em sua vida) até as que reconhecem exercer uma função considerada ilegal (em A Hora da Estrela, a cartomante reclama da perseguição policial por estar explorando os outros).Homem descrente - O perfil dos consulentes também vai ser apresentado no documentário. São pessoas de todas as classes sociais, mas mulheres em sua maioria. Algumas são fiéis, pois há dez anos abrem cartas com a mesma cartomante. O que variam são as inquietações - assim, ganham destaque as questões amorosas, preocupações com a carreira, problemas de saúde, ambições e rivalidades. "O que une essas pessoas é a necessidade típica do ser humano de ter alguém que lhe diga o que fazer", comenta João Jardim, ciente de avançar em uma atividade especialmente feminina. "Homem normalmente não acredita nesse tipo de especulação; por isso, vamos seguir com precisão o olhar da Renata que surge em sua pesquisa."Jardim afirma não estar preocupado em desmascarar o trabalho das cartomantes, apontadas como charlatães por alguns. O que lhe interessa é discutir a relação de insegurança do ser humano e sua necessidade de tratar o futuro com alguém que não conhece e, em alguns casos, até duvida da qualidade do trabalho. "O curioso é que as cartomantes levam uma vida semelhante à de seus consulentes, com as mesmas dúvidas e a mesma insegurança."

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