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Documentário 'Inaudito' mostra o momento atual de Lanny Gordin

Guitarrista já foi considerado o Jimi Hendrix brasileiro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 07h42
Atualizado 16 de fevereiro de 2020 | 15h37

Havia uma espécie de lenda urbana na São Paulo musical dos anos 1960: um garoto tocava divinamente sua guitarra numa boate da Praça Roosevelt. Nunca se vira coisa igual. Ele empunhava sua guitarra em parceria com monstros sagrados como Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte e tirava do instrumento um som absolutamente original.

Para o dono da casa (que, por acaso, era seu pai), o volume muito alto da música espantava a freguesia. Mandava abaixar. O filho obedecia, mas, aos poucos, ia aumentando de novo. Quem quisesse conversar entre uma birita e outra ficasse em casa. Lá na Stardust o ambiente era para quem quisesse ouvir música de alta qualidade – e em volume alto. O tal guitarrista, Lanny Gordin, ficou famoso e gravou discos com a nata da MPB, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jards Macalé, além de Hermeto, claro. Ele é o personagem do ótimo documentário Inaudito, de Gregório Gananian, premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes. 

Chinês de Xangai, filho de pai russo e mãe polonesa, chegado menino ao Brasil depois de quatro anos em Israel, Lanny tem uma história pessoal das mais inusitadas. Trajetória artística que justifica a proclamada fama de genialidade na performance com a guitarra – chegou a ser chamado de “Jimi Hendrix” brasileiro. Mas também calçada de percalços vários e pesados, como as drogas com as quais se envolveu e o diagnóstico de esquizofrenia que o levou à internação em hospital psiquiátrico.

O filme, que tem Danielly O. M. M. como uma das realizadoras, se ocupa dessa trajetória acidentada, porém de forma mais alusiva que conclusiva. Inaudito não é uma cinebiografia convencional, daquele tipo “quem é quem”, com muitos depoimentos sobre o personagem e material de arquivo. Tanto uns como outro são trazidos ao filme, mas com extrema parcimônia. O foco é resgatar o artista na volta à cena, com sua filosofia de vida e sua guitarra. E em sua fase atual. Na qual, é o próprio Lanny quem diz, ele faz “outro tipo de música”. 

O artista que passava do jazz ao rock e daí à tropicália, brincando com a bossa e “quebrando tudo”, conforme o jargão dos instrumentistas, hoje se diz adepto de uma música “free”. Livre. Ponto de chegada de um artista que já era craque com 15 ou 16 anos de idade e chamava a atenção de gente tarimbada como Gil, Caetano, Elis Regina, Tom Zé, Gal Costa, Tim Maia e Rita Lee. No esplendor da juventude, Lanny acompanhou essas feras da música brasileira em álbuns de sucesso, gravou seus próprios discos e depois caiu no ostracismo, vítima de seus problemas. 

O filme mostra esse Lanny contemporâneo, tomando a música como expressão de sentimentos e veículo de busca espiritual. Bem, a música pode ser descrita como o que pode e o que não pode ser feito com os sons. A invenção fica meio espremida entre as regras da harmonia, assim como a gramática delimita o escritor. A arte consiste em negociar com essas barreiras e ser criativo dentro de linhas divisórias que, claro, dependem do lugar, época e da própria ousadia do artista. Os que se conformam com as fronteiras tendem a se repetir. Os que as subvertem de maneira muito radical correm o risco de não serem compreendidos. Mas a ambição de todo criador digno desse nome é ampliar a linguagem com a qual trabalha. Sem transgressão não se evolui. “Expandir a fronteira da música”, repetia Charlie Parker, como uma espécie de prece, ou mantra.

Inaudito registra esse momento da trajetória de Lanny Gordin. Ponto no qual a música já não lhe coloca limite. Ele apenas pede que se ouça o som tirado de sua guitarra e se deixe levar por ele. Um som que o coloca (e a nós) como partes de um universo que nos transcende. É filmado em São Paulo, mas também na sua China natal, onde o som que tira do instrumento faz as vezes de elemento de comunicação. Lacônico, Lanny não se importa em explicar seu processo de criação: “Eu estudei todos os estilos até criar um estilo único, que é a música pura, primordial”, diz o guitarrista. Esse estilo consiste em sequências pouco habituais de notas e acordes. Ou às vezes um som único, obtido com a fricção da palheta contra as cordas de aço da guitarra elétrica. 

Artista tão pouco convencional não poderia ganhar um documentário quadradinho. O filme tinha de ser, ele também, fora das normas. É o que faz Gregório Gananian. Se Lanny tenta descrever o som que faz, mas as palavras lhe parecem insuficientes, também as imagens do filme parecem alusivas, abertas e nunca conclusivas. Forma e conteúdo se dão as mãos nesse processo musical que, no limite, é uma vertente da busca espiritual do artista. Busca pela música, na qual o silêncio tem seu espaço e valor. ‘Inaudito’ significa aquilo que nunca foi ouvido. 

 

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