Documentário 'Hélio Oiticica' traz a marginália como utopia às avessas

Dirigido por Cesar Oiticica Filho, sobrinho do artista, filme traça retrato fiel de um dos mentores da Tropicália

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

05 de agosto de 2014 | 02h00

Em geral, ficamos com o pé atrás quando artistas ilustres são biografados por parentes. Há motivos. Em geral, falta distanciamento crítico, e a tendência é endeusar, esconder os pontos fracos e ressaltar os fortes. É humano, compreensível, porém limitante. Mas tais desconfianças não se aplicam de jeito nenhum a este documentário, Hélio Oiticica, dirigido por Cesar Oiticica Filho, sobrinho do artista. Ele é tudo, menos chapa-branca. É muito bom filme e enriquecedor para quem o vê.

Primeiro, porque Cesar não vê qualquer motivo em aplainar as arestas da personalidade forte do tio. Fazê-lo seria neutralizar o caráter revolucionário do personagem. Segundo, porque, provavelmente por ser da família, teve acesso a material privilegiado, o que lhe permite traçar um painel bastante amplo da trajetória do artista, e também do seu tempo. 

Por meio de entrevistas históricas e farto material de arquivo, sob a forma de gravações de entrevistas, filmes em super-8, fotos e colagens, temos, no filme, uma imersão radical no universo de Oiticica. Ou seja, no ambiente da arte de vanguarda da virada dos anos 1960 e 1970, quando a questão, para o artista, era implodir o modelo tradicional da estética e também da vida. O quadro exposto no museu, a pintura limitada pela moldura – nada disso o interessava. Importava era levar a experiência estética ao encontro da vida, para dialogar com o mundo sensorial das pessoas. Daí a invenção dos parangolés e penetráveis, dispositivos cuja estratégia era abolir a distância entre a arte e quem a frui. 

O universo Oiticica vai assim sendo desenhado com traços surpreendentes, para quem não o conhece. Por exemplo, em sua convivência com o pessoal do morro, em especial os sambistas da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, onde aprendeu a dançar como gente grande e da qual tornou-se passista. Mas onde também aprende um modelo de convivência social “não-burguesa”com os sambistas e malandros. A dança, o culto de Dioniso estão no personagem e, por extensão lógica, em sua arte. 

Há também o Oiticica filho do seu tempo. Agente e paciente de uma época das mais estimulantes – e perigosas – para se viver. Época da contracultura, quando a contestação ao regime (no Brasil, uma ditadura) passa pela demolição geral de qualquer tipo de autoridade. É, como se convencionou chamar, um tempo de sexo, drogas e rock’n’roll. E também de certa idealização da marginália, que representaria a negação simbólica da sociedade estabelecida. É o caso da homenagem prestada por Oiticica ao bandido Cara de Cavalo (Manoel Moreira, morador da Favela do Esqueleto, no Rio), assassinado pelo esquadrão da morte. “Seja marginal, seja herói” era a divisa, que pode resumir toda uma estética e toda uma proposta para uma época de implosão de costumes, desespero político e descrença nas alternativas políticas tradicionais. 

Filho do anarquista José Oiticica, Hélio foi o que hoje se chamaria um multiartista, pintor, escultor, escritor, performer. Inventou o “paragonlé”, um não-objeto de arte, espécie de capa que desvela suas formas apenas com o movimento do bailarino que a veste. Um dos seus “penetráveis”, chamado de Tropicália, batizou o movimento, basicamente musical, do grupo baiano, e que, bem ou mal, colocou em crise a música popular brasileira. 

Claro, e o filme traz isso – que Hélio Oiticica era aparentado e um dos mentores de todo esse grupo, no qual conviviam Glauber Rocha (de Câncer, filme no qual Hélio é ator), Caetano Veloso, Gilberto Gil, Waly Salomão, Carlos Vergara, Antonio Dias, Neville D’Almeida et caterva. Todos circulando pelo eixo Nova York-Londres em plena era da revolução sexual e comportamental, enquanto aqui no Brasil comia a ditadura militar, moralista, entre outras virtudes cristãs. 

De todos, Hélio Oiticica talvez tenha sido aquele que mergulhou mais fundo nessa espécie de utopia às avessas. Em seu livro Verdade Tropical, Caetano Veloso mata a charada: “...a tematização ostensiva de sua mitologia pessoal (Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, os bandidos das favelas com quem mantinha amizade pessoal, o rock’n’roll, o sexo, as drogas pesadas), um comprometimento de ser, ele mesmo, uma obra conceitual.” 

É isso. Abolida a distância, o artista é a própria obra. E queima como pira rápida. Nascido em 1937, Hélio morreu em 1980, com 42 anos.

HELIO OITICICA

Direção: Cesar Oiticica Filho. Gênero: Documentário (Brasil/2012, 95 minutos). Classificação: 14 anos.

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