REUTERS/Marcelo Del Pozo
REUTERS/Marcelo Del Pozo

Documentário 'Forman vs. Forman' traz revelações sobre a vida do cineasta checo

No filme, que está na seleção do Festival É Tudo Verdade, Milos Forman conta tudo, é honesto na sua autocrítica e o espectador ainda é presenteado com as inesquecíveis imagens de suas grandes obras

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2020 | 09h00

No começo dos anos 1970, Milos Forman viveu por dois anos, de graça, num hotel de Nova York. Se não fosse a generosidade do dono, sabe-se lá o que poderia ter ocorrido com ele. Depois que os tanques soviéticos esmagaram a chamada 'Primavera de Praga', em 1968, ele abandonou a Checoslováquia. Atraído pela possibilidade de dirigir um filme nos Estados Unidos, fez Procura Insaciável, que desconcertou o público e foi um fracasso. Poderia ter sido o fim para ele. Sem dinheiro, com a mulher e os filhos gêmeos em Praga, sem condições de retornar, dependeu da caridade de um estranho - o dono do hotel.



Milos Forman conta essa e outras histórias no documentário de Helena Trestiková e Jakub Hejna, que passa nesta sábado, 26, no É Tudo Verdade. Basta entrar, às 13h, no site do Festival Internacional de Documentários, mas atenção que o número de views é limitado. Vale destacar que o sábado terá duas atrações brasileiras: os debates com os diretores Jorge Bodanzky e João Jardim. Bodanzky debaterá com o público às 16h, após a reexibição de UnB Utopia Distopia às 11h. João Jardim, às 17h, após a apresentação de Atravessa a Vida. Ambos os filmes estão ligados aos temas da educação no Brasil. A Universidade de Brasília, sonho de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, que sofreu a dura repressão do regime militar e os estudantes de ensino médio que se preparam para o Enem numa escola no interior de Sergipe.

Nascido na pequena cidade de Caslav, em 1932, Milos Forman lembra a infância despreocupada. O dia em que foi ao cinema pela primeira vez, para ver um filme mudo baseado numa ópera checa muito popular. Na tela, as imagens, e o público que cantava, fornecendo o som. Aquilo o marcou profundamente, e ele diz que talvez tenha nascido ali a decisão de se tornar diretor. Veio a 2.ª Guerra, o pai foi levado pelos nazistas e Forman nunca mais o viu. A mãe também foi levada, a seguir, e ele a reviu apenas uma vez. Nunca se esqueceu daquele reencontro. Tinham tanta coisa para se dizer. Falaram sobre banalidades. A mãe queria saber do tempo, da colheita, das roupas.

Foi criado num internato modelo para órfãos de guerra, mas que passou a ser frequentado por filhos de figurões comunistas. Passou por famílias adotivas, mas não se fixou em nenhuma. Criou fama de rebelde.Tornou-se cineasta e, graças a Pedro, o Negro, Os Amores de Uma Loira e O Baile dos Bombeiros, tornou-se um dos nomes importantes - o mais? - da nouvelle vague checa. Encerrado brutalmente o sonho de liberdade da Primavera de Praga, foi para os EUA, para aquele hotel. A história teria sido outra, se não tivesse sido convidado para dirigir Um Estranho no Ninho. Ganhou seu primeiro Oscar de direção. Para quem sobrevivera ao nazismo e enfrentara a censura do regime comunista, denunciar o sistema manicomial norte-americano com o filme baseado no livro de Ken Kesey fazia todo o sentido.

 


Forman foi sempre crítico das instituições, continuou sendo na 'América'. Encantou-se com os hippies e fez o musical Hair, só para descobrir que aquela juventude era muito chata. Ficavam olhando para o céu, coletavam dinheiro para comprar comida e drogas, e ficavam - chapados - olhando para o céu de novo. Liberdade, ou alienação? Fez Na Época do Ragtime, seu ataque ao racismo, e Amadeus, que lhe permitiu voltar a Praga, de onde estava banido. Reencontrou a ex-mulher e os filhos gêmeos. Fez o filme queria, como queria, e ganhou o segundo Oscar de direção. Levou os filhos para os EUA, casou-se de novo - e teve filhos gêmeos com a nova mulher. Era o primeiro a rir da coincidência, esse monte de filhos varões.

O restante é história. Forman vs. Forman. Ele conta tudo, é honesto na sua autocrítica e o filme ainda apresenta as inesquecíveis imagens de seus grandes filmes. Para o cinéfilo, há de ser um regalo. O sábado terá mais dois filmes merecedores de atenção: Os Quatro Paralamas, de Roberto Berliner e Paschoal Samora, às 21h (com reprise no domingo às 15h, seguida de debate às 17h), resgata a figura do empresário José Fortes e como ele foi importante para o sucesso da banda. 1982, do argentino Lucas Gallo, às 18h, mostra como a ditadura militar no país vizinho iniciou a Guerra das Malvinas em busca de apoio popular. Com base principalmente em material de arquivo do programa 60 Minutos, mostra como foi feita uma campanha para mobilizar a opinião pública numa espécie de fervor patriótico. O filme critica justamente o papel da imprensa, que foi aliada do regime militar, criando a fantasia de uma guerra que a Argentina não poderia ganhar, principalmente depois que os EUA deram apoio - e tecnologia, e armamentos - à Grã-Bretanha de Margaret Thatcher. O presidente, General Leopoldo Galtieri, não era páreo para a Dama de Ferro e terminou condenado por crimes contra a humanidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.