Documentário expõe entranhas da Justiça brasileira

As entranhas do Fórum carioca serão expostas no Festival de Cinema de Roterdã, com a exibição, no domingo, do documentário Justiça, da brasileira Maria Augusta Ramos, radicada nos Países Baixos há dez anos. O filme é uma produção binacional, Holanda-Brasil, e foi rodado no primeiro semestre do ano passado, período em que Maria Augusta acompanhou o desenrolar do processo de cinco réus de varas criminais e o dia-a-dia de três juízes e uma defensora pública. Justiça terá estréia mundial, mas houve sessão para convidados, na semana passada, no Cine Odeon, para alguns membros do Poder Judiciário fluminense, que se emocionaram com seu retrato na telona."Estou comovido. É muito bom como cinema e revela o autoritarismo, a prepotência, a desumanidade e a injustiça do que se chama Justiça no Brasil", disse o desembargador Sérgio Verani, ao sair da sala de exibição. "Reparou como o rosto dos juízes se parece com o dos inquisidores? Mesmo o mais progressista?", indagou. "A cena evidente dessa postura massacrante é quando o Policial Militar, enorme, depõe na presença do réu, um garoto pobre e subnutrido. A diferença física entre os dois é o mote do filme."Justiça tem o propósito confessado de emocionar e, a partir da história pessoal de seus personagens, fazer refletir. É aparentado com Cidade de Deus e Carandiru, ao mostrar de perto favelados e outros marginalizados, mas tem duas diferenças fundamentais, na forma e no conteúdo. Ali ninguém representa, o que se vê na tela é a vida real de cada personagem, seus dramas e ansiedades. E o filme foge das acrobacias de edição ou de câmera. Pelo contrário, esta é fixa, como se testemunhasse a cena. Os planos são longos, até monótonos, embora a tensão constante afaste o tédio e leve direto à emoção dos personagens.Este é o nono filme de Maria Augusta e seu terceiro longa, todos documentários. "Queria mostrar a tensão urbana no Rio e uma amiga me sugeriu visitar o Fórum. Passei a freqüentar as varas criminais, conhecer juízes, funcionários, réus e a estudar processos. Quis provocar emoção sem passar uma idéia pré-concebida", conta ela. Mas não foi fácil chegar ao resultado final. "Houve uma longa pesquisa para encontrar personagens e obter deles autorização para registrar suas vidas. A ajuda dos policiais foi indispensável para localizá-los, pois eles se espalham pelo sistema penal e há pouca informação sobre isso. Dois terços dos réus aceitaram ser filmados sem problemas."

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