Documentário em Tribeca conta vida de ex-soldado mirim de Uganda

O que chamou a atenção do cineastaamericano Kief Davidson no ex-soldado mirim de Uganda e atualcampeão mundial de boxe Kassim "The Dream" Ouma foi o fato deele viver sorrindo. Davidson ficou fascinado com a maneira como Ouma enfrentouseu passado. Ele foi sequestrado aos 6 anos de idade, quandoestava na escola, pelo exército rebelde de Yoweri Museveni --hoje presidente do Uganda. Mais de dois anos depois de o diretor ver Ouma numnoticiário de televisão, seu belo documentário "Kassim TheDream" estreou na sexta-feira no Festival de Cinema Tribeca, emNova York. No filme, Davidson conta a história da primeira viagem queOuma fez de volta a Uganda desde que fugiu para os EUA, em1998. As filmagens aconteceram no ano passado, durante umcessar-fogo entre o governo de Museveni e o rebelde Exército deResistência do Senhor. Mas as negociações fracassaram no início de abril, apósquase dois anos. A guerra civil já dura 22 anos e deixoudezenas de milhares de mortos e 2 milhões de deslocados, apenasno norte do Uganda. Ouma, que aprendeu boxe no exército, fugiu para os EUA aos19 anos, usando um visto que recebeu para participar de umcampeonato militar de boxe. Ele chegou ao país sem ter ondemorar e sem falar inglês. "O boxe foi minha porta de saída e é minha terapia", disseOuma, 29 anos. E foi sua fama como boxeador, especialmente depois da muitonoticiada luta contra o campeão dos pesos médios JermainTaylor, que levou o presidente ugandense Yuseveni a lheconceder um perdão e a possibilidade de voltar a seu país. O diretor Davidson disse: "Kassim tinha medo. Os militarestinham dito que se ele voltasse a pôr os pés em Uganda seriajulgado por deserção, e a pena para a deserção é a morte." Mas, disse o diretor, Ouma viu as câmeras como suaproteção. A equipe de filmagem tinha o apoio de senadoresamericanos e ONGs que ajudaram o boxeador a receber o perdãopresidencial. Davidson também temia que algumas pessoas pudessem quererse vingar do pugilista. "Quem sabe quem ele matou no passado?Ele foi vítima e também perpetrador de crimes", disse odiretor. Ouma disse que espera que o filme divulgue a situação dossoldados mirins e das pessoas que vivem em campos dedeslocados, temendo retornar a seus povoados. Dando o sorriso largo que já virou sua marca registrada,ele revelou que, depois do boxe, gostaria de atuar em filmes deartes marciais. "Vou ser o Jet Li africano", disse ele. "Esperem paraver!"

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