Documentário do marechal Rondon, em Paris

O documentário Tempo de Rondon, de Marco Valle, uma biografia do marechal Rondon (1865-1958), será exibido nessa quinta-feira, em Paris, na embaixada brasileira. O interesse francês se explica porque ele contém uma das raras entrevistas do antropólogo Claude Levi-Strauss, que esteve no Brasil, e cita o contato com o marechal Rondon em seu livro Tristes Trópicos. "A entrevista com Levi-Strauss foi difícil de obter. Ficamos meses tentando, até que ele concordou em falar dez minutos. Mas acabamos ficando cerca de 25 minutos com ele", explica Marco Valle, que assina a direção com Joel Pizzini.O documentário é uma produção da VCA Filmes, feito originariamente para a TV mato-grossense, dentro do projeto Documenta, coordenado por Pizzini, que fará documentários sobre dez personalidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Tempo de Rondon está despertando o interesse de algumas emissoras de outras regiões. Tudo indica que deverá ser comprado pelo Canal Brasil.Para chegar ao resultado, foram necessários quatro meses de pesquisas, em arquivos por todo o Brasil. "A busca por informações e imagens nos levou até a Biblioteca do Congresso, em Washington, que tinha documentação sobre a expedição Rondon-Roosevelt", conta Valle. Algumas das imagens que estão em melhor estado de conservação são as que mostram a expedição científica comandada pelo marechal e que teve a participação do ex-presidente Franklin Roosevelt. O sucesso valeu ao marechal o reconhecimento internacional e o Prêmio Livingstone, concedido pela Sociedade Geográfica de Nova York.Tempo de Rondon traz imagens inéditas do marechal, feitas pouco antes da sua morte, em 1957. É uma raríssima oportunidade de se ouvir a voz de Rondon. Há também um comovente depoimento do sertanista Orlando Villas-Boas, que ajudou a criar em conjunto com Rondon, o Parque Nacional do Xingu. O documentário traz também o depoimento da neta de Rondon, Elizabeth Rondon Amarante, que dá continuidade ao trabalho do avô, entre os índios niquis, em Mato Grosso.O marechal Cândido Mariano da Silva Rondon era um homem à frente de seu tempo. No início deste século, ele já tinha plena noção da importância de preservar a cultura indígena. Em relação ao contato com os índios, ele costumava dizer: "Morrer, se preciso for. Matar, nunca." Ele também era contra a catequese dos índios, por acreditar que ela desrespeitava a cultura desses povos.Rondon foi militar, sertanista, engenheiro e dedicou grande parte de sua vida aos índios. À frente do Departamento de Comunicação do Exército, Rondon construiu linhas de telégrafo na região do Amazonas, Pantanal e até no sertão, além de mapear boa parte dessas regiões, que até então eram desconhecidas. Se colocadas em linha reta, suas andanças pelo Brasil seriam suficientes para dar a volta ao mundo.Ao longo dessas viagens, deparou-se con dezenas de tribos indígenas, com os mais diversos comportamentos. Desde os agressivos e arredios, até os dóceis, muitos dos quais eram escravizados por fazendeiros.Nos últimos anos de vida, Rondon constatou que a possibilidade da convivência pacífica entre brancos e índios era mesmo utópica e passou a empenhar-se ainda mais na criação de parques que permitissem aos índios viver longe da civilização.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.