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Documentário devastador sobre Amy Winehouse faz sucesso na Inglaterra

Filme, um verdadeiro diário da destruição, foi o doc britânico de maior sucesso na estreia, arrecadando US$800 mil

Manohla Dargis , THE NEW YORK TIMES

07 Julho 2015 | 05h00

Em The Dogs Are Eating Your Mother (Os cães estão comendo sua mãe), um poema que Ted Hughes escreveu para seus filhos e, por extensão, para críticos e fãs, ele fala de hienas que rasgam o corpo de sua esposa morta, Sylvia Plath. Depois de desenterrá-la: “They batten/ On the cornucopia / Of her body (elas se banqueteiam com a cornucópia do seu corpo, em tradução literal)”. 

Em Amy, uma biografia devastadora da cantora e compositora inglesa Amy Winehouse, temos a visão de outras hienas toda vez que os paparazzi partem para matar. Os fotógrafos sacam suas câmeras diante do seu rosto e corpo destruídos, rasgando-a a cada clique da máquina. Algumas dessas imagens aparecem em Amy, que descreve o arco da breve e desordenada existência da cantora de jazz de voz rouca, à sensação global da música pop e à sua morte em 2011, aos 27 anos, por intoxicação alcoólica. 

A visão deste material incomoda, como alguns dos seus dolorosos autorretratos. O diretor, Asif Kapadia, não responde diretamente se o público queria ver Winehouse afundar definitivamente ou, ao contrário, se alimentou insistentemente sua queda, embora esta pergunta paire sobre o filme. Porque, qualquer que tenha sido a causa, ficou difícil evitar que sua degradação fosse persistentemente alimentada no final de sua vida, foto por foto, piada por piada. 

O impressionante agora é descobrir que nós todos estávamos vendo Amy morrer. E ainda estamos, embora haja muito mais neste documentário do que um espetáculo triste. O perfil mais amplo da história de Amy é mais ou menos conhecido, porque já foi empacotado e vendido através da máquina da publicidade e da mídia, os motores mutuamente dependentes da cultura contemporânea da celebridade. 

Kapadia mantém seu olhar – e o nosso – fixo em Amy o tempo todo. De maneira inteligente, ele montou os visuais exclusivamente com imagens de arquivo, vasculhando uma valiosa coleção de vídeos da família, material de concertos, entrevistas para divulgação e sessões de gravação – entre os mais interessantes está uma sessão emocionante com Tony Bennett, dando-lhe todo o seu carinhoso apoio. 

Amy era surpreendentemente engraçada, à vontade, aparentemente dotada, com uma mente aguda e um profundo autoconhecimento, como sugeria o temor que ela manifestava de se tornar famosa. A fama a afetou rapidamente, de maneira inflexível, impiedosa. Kapadia mostra os aspectos positivos, como o relacionamento com outros músicos, como Yasiin Bey quando ele era conhecido como Mos Def. E também os inevitáveis aspectos negativos, como os que ajudaram a destruir sua saúde, e a transformaram em matéria para tabloides. 

Foi horrível, e às vezes isso nos enfureceu, ver Jay Leno, que a recebeu no Tonight Show, fazer piada com repulsiva insensibilidade sobre o fato de ela se drogar. E embora às vezes ela tentasse evitar o público, parecia incapaz de fugir dele – de nós – por opção ou não. Torna-se progressivamente mais difícil assistir à decadência de Amy, enquanto sua intimidade, que no início parecia bonita, calorosa, confortável, começa a ser invadida de maneira desconfortável. 

Este desconforto é crucial para a complexidade do filme e é por esta razão que funciona como certa provocação ética e intelectual. Com Amy, Kapadia não se limita a revisitar sua vida e morte, mas também – empurrando-nos mais perto dela, de início de maneira agradável e depois desagradável – contando a história de uma celebridade contemporânea e, fundamentalmente, o peso representado pelos fãs. 

Obviamente ela gostava de algumas coisas que a fama lhe proporcionara, mas também acumulara bandos de paparazzi e alguns relacionamentos nocivos. A família de Amy queixou-se de que o filme é equivocado e contém graves inverdades. Entretanto, Kapadia, ao que parece, não precisou esforçar-se para que alguns integrantes do círculo da cantora revelassem seu mau caráter; eles fizeram um excelente trabalho neste sentido por conta própria. Os outros, como nós, tampouco saem sentindo-se perfeitamente bem. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
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