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Documentário 'De Palma', de Noah Baumbach e Jake Paltrow, faz tributo a Hitchcock

Enquanto filmava 'Os Intocáveis', revelações deliciosas de bastidores

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2016 | 04h00

Em 1966, François Truffaut realizou uma grande entrevista com o mestre do suspense, que resultou num livro clássico – Le Cinéma Selon (Alfred) Hitchcock, ou, no Brasil, Hitchcock Truffaut. Meio século mais tarde, os diretores Noah Baumbach e Jake Paltrow também fizeram uma longa (30 horas) entrevista com Brian De Palma. Não a converteram em livro, mas em filme, um admirável documentário que estreou na quinta, 24, no Brasil. A distribuição de De Palma é da RT, a empresa produtora (e distribuidora) de Rodrigo Teixeira.

De Palma conta tudo, reflete sobre sua carreira e os diretores usam as falas para esmiuçar cenas antológicas de seus filmes. De Palma é cria de Hitchcock. Por mais cinéfilo que seja, e outras influências sejam latentes em seu cinema, a maior é do criador de Um Corpo Que Cai e Psicose. Baumbach e Paltrow não são críticos como Truffaut, mas possuem um olhar analítico. E são rigorosos.

Em Hitchcock Truffaut, o francês se assume como discípulo e é tão tiete que o mestre muitas vezes lhe cobra compostura. Como quando Truffaut tenta supervalorizar coisas que o senso estético de Hitchcock sabe que não saíram tão boas quanto gostaria. De Palma tem um pouco disso. O diretor é extremamente crítico na avaliação do próprio trabalho. Refere-se a alguns de seus grandes filmes como “fracassos”. Como assim?

Talvez porque seja próprio da arte, e do artista, colocar a barra tão alto que o criador toma consciência dos seus limites. É fascinante ver as cenas descontextualizadas, e De Palma refletindo sobre elas. A ducha de Hitchcock, a escadaria de Odessa em Os Intocáveis, o laboratório kubrickiano de Missão Impossível. A violência contra as mulheres. E os acasos, os golpes de sorte. As ajudas – como quando Steven Spielberg lhe sugeriu Kevin Costner para Os Intocáveis. Você vai ver os filmes de De Palma com outros olhos. Talvez veja o cinema, em geral, tal a riqueza (estética, conceitual) dessa verdadeira master class.

MOMENTOS MARCANTES

Carrie, a Estranha, de 1976

Adaptada de Stephen King, a história da garota que sofre bullying na escola. Carrie usa seus poderes telepáticos para se vingar. Bem no final - olha o spoiler -, aquela mão salta do túmulo. Você pode ter visto 100 vezes. Vai sempre saltar da poltrona.

Vestida para Matar, de 1980

Depois da cena do museu, que evoca Um Corpo Que Cai, Angie Dickinson fala com seu terapeuta. Encerrada a sessão, toma o elevador. A porta está se fechando quando entra a figura sinistra e saca a navalha, filmada como a faca que retalha Marion Crane em Psicose.

Scarface, de 1983

Há polêmica, mas o maior filme de Brian De Palma talvez seja o menos hitchcockiano. Al Pacino faz o cubano que passa a dominar Miami a ferro e fogo. Quando não está cheirando, está matando. A carnificina em seu bunker, quando saca da metralhadora, era cultuada por Carlos Reichenbach.

Os Intocáveis, de 1987

Difícil é escolher a grande cena desse grande sucesso de bilheteria de De Palma. A da carnificina na Central Station de Chicago, que reproduz a escadaria de Odessa de O Encouraçado Potemkin. Ou aquela em que Robert De Niro, como Al Capone, mata o desafeto à mesa, com golpes do taco de beisebol.

Missão Impossível, de 1996

Tom Cruise invade o laboratório, antisséptico (e branco) como a nave de 2001, de Stanley Kubrick. Está pendurado por um fio, que cede. Ele sua de nervoso. O pingo vai cair e emitir o som? Eletrizante. Por falar em som, a mulher que corre de salto alto em Femmne Fatale, de 2002, é puro fetiche.

'Vertigo' e seu poder de sedução

Apesar das referências a Stanley Kubrick (em Missão Impossível) e Sergei M. Eisenstein (em Os Intocáveis), o fantasma que assombra o cinema de Brian De Palma é o de Alfred Hitchcock, em especial uma cena emblemática criada pelo mestre do suspense. O assassinato de Marion Crane/Janet Leigh na ducha de Psicose, de 1960. Não é só uma referência estética, que De Palma emulou diversas vezes, reproduzindo ou imitando a cena famosa. É, acima de tudo, temática.

A mulher, no cinema de De Palma, é, volta e meia (senão sempre), retalhada, perpassada. Pode ser faca, navalha, britadeira ou o mais machista e violento dos recursos: o estupro. A mulher, nos filmes do autor, é a vítima preferencial da violência dos homens. Atacam-na por prazer, sadismo, para provar sua superioridade, por medo - talvez - do enigma feminino. É uma fantasia, claro. Um pesadelo. Mas anima com frequência a criatividade.

Apesar disso, há controvérsia se a arte de De Palma é machista. É mais certo que ele reproduza esse modelo para melhor criticá-lo. E o curioso é que, sendo Hitchcock seu primeiro amor e a ducha de Psicose o fetiche, o primeiro filme do mestre, o que marcou o cineasta, foi outro. Ele lembra que era criança quando viu, no Radio City Music Hall, em Nova York, Vertigo, em 1958. Um Corpo Que Cai. O poema necrófilo por excelência. James Stewart perde duas vezes Kim Novak. De Palma apaixonou-se. Por Hitchcock e pelo cinema. A paixão continua. 

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