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Chris Pizzello/AP
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Documentário de Mark Cousins avalia com entusiasmo e amor filmes feitos entre 2010 e 2021

Diretor também foi responsável pelos 15 episódios de 'A História do Cinema: Uma Odisseia'

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

09 de julho de 2021 | 05h00

Depois de dirigir os 15 episódios de A História do Cinema: Uma Odisseia, Mark Cousins achou que era a última vez que ia fazer algo parecido. Mas ele está de volta com The Story of Film: A New Generation, que cobre o cinema entre 2010 e 2021 e é exibido em sessão especial no Festival de Cannes. 

Uma Odisseia foi um trabalho duro. Quando terminei, disse: nunca mais. Dez anos depois, tinha me esquecido como havia sido difícil. Esta é uma razão pela qual fiz essa atualização”, disse em entrevista a Tabitha Jackson, diretora do Sundance Festival, no material de imprensa do documentário. “Também havia muita coisa acontecendo no cinema. Todo tipo de coisa tinha mudado, da maneira como vemos os filmes a quem está fazendo os filmes, e de onde eles estão vindo. Então, havia muito a examinar.”

O longa começa com uma associação inusitada entre Coringa (2019), de Todd Phillips, e Frozen – Uma Aventura Congelante (2013), de Jennifer Lee e Chris Buck, comparando a cena da dança na escada do vilão das histórias de Batman com o número musical de Let it Go. “Não há certo, nem errado, nem regras para mim”, diz, relacionando Coringa e Elsa. O fato de turistas brasileiros imitarem a cena na escadaria em Nova York prova, para Cousins, que filmes ainda têm poder e nos movem. 

A partir daí, o diretor promove um ziguezague mundial – o Brasil está ausente, a não ser menção a Limite (1931), de Mário Peixoto. “Os filmes pulam fronteiras”, ele fala, na narração, “enquanto os políticos nos dizem que nosso país é único”. Seu objetivo com esse longa dedicado à Nova Geração (como é conhecida a geração dos anos 1970 do cinema americano) é redesenhar o mapa do cinema, que tem sido machista e racista por omissão. Cousins se fez uma pergunta: o que não conheço? Com ajuda do Twitter, foi atrás de lacunas na sua cinefilia, especialmente produções indianas, árabes e africanas. “Minha intenção é mais plantar uma bomba embaixo do cânone. Porque ele precisa ser completamente explodido”, disse na entrevista do material de imprensa. Não que o cânone não seja útil. Mas é preciso ampliá-lo para incluir novas vozes.” 

E assim ele vai ajudando a alargar essa lista de filmes imperdíveis, pulando de continente em continente, colocando lado a lado Fora de Série (2019), uma comédia sobre duas adolescentes americanas dirigida por Olivia Wilde, e PK (2014), do indiano Rajkumar Hirani, sobre um extraterrestre (Aamir Khan) perdido na Terra que tem dificuldades de compreender a religião. Estima-se que 35 milhões de pessoas tenham visto PK e, no entanto, o mundo ocidental praticamente o desconhece. “Não queremos uma situação em que metade do mundo se apaixonou por um grande filme e a outra metade, a metade ocidental, nem ouviu falar dele”, disse Cousins a Tabitha Jackson.

Na primeira parte, Cousins mostra comédias, filmes de ação, musicais, produções com o corpo humano no centro, terror, obras lentas, documentários e longas com aspectos irreais ou surreais. A lista é extensa, incluindo de Zama (2017), de Lucrecia Martel, coprodução Argentina e Brasil, a Deadpool (2016), dirigido por Tim Miller, de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller, a Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), de Barry Jenkins, de Lovers Rock (2020), dirigido por Steve McQueen, a O Botão de Pérola (2015), do chileno Patricio Guzmán. 

Na segunda parte, ele se debruça sobre filmes que transgrediram a linguagem do cinema, como Holy Motors (2012), de Leos Carax, e Sob a Pele (2013), de Jonathan Glazer, passando por Adeus à Linguagem (2014), de Jean-Luc Godard, e O Ato de Matar (2012), de Joshua Oppenheimer. Alguns são transgressores por causa da tecnologia, como Planeta dos Macacos: A Guerra (2017), de Matt Reeves, com sua performance de captura de movimentos, outros por mostrarem uma África que derruba todos os estereótipos, como Pantera Negra (2018), de Ryan Coogler. 

Há também os filmes que fazem com que nos confrontemos, como Eu Não Me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros (2018), de Radu Jude, ou Nós (2019), de Jordan Peele, ou que discutem os laços familiares sob o ponto de vista de uma filha de imigrantes, como A Despedida (2019), de Lulu Wang, ou que colocam no seu centro uma pessoa transgênero, como o chileno Uma Mulher Fantástica (2017), de Sebastián Lelio, ou que falam de raça e do sistema prisional americano, como A 13ª Emenda (2016), de Ava DuVernay. 

Mark Cousins realizou A New Generation durante a pandemia, e o filme lhe serviu de companhia e alento. Acontece o mesmo com quem assiste. Por mais que a morte do cinema tenha sido decretada, mais recentemente por causa da covid-19 e dos serviços de streaming, ele continua aí – e a realização do Festival de Cannes é, de certa forma, uma prova. O cinema continua nos apresentando trabalhos que nos movem, comovem e fazem pensar. A única armadilha a evitar, segundo Cousins, é tentar dar ao público apenas o que o público deseja. Seu recado é direcionado aos serviços de streaming e seus algoritmos. “Eles não podem continuar nos contando o que já conhecemos. O público não sabia que queria David Bowie. O mundo não sabia que queria Frida Kahlo.” Mas o diretor acha inevitável que eles percebam isso e abram espaço para o que os criadores fazem melhor: criar. 

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