Denise Andrade/Estadão
Denise Andrade/Estadão

Documentário de João Farkas expõe desigualdade entre centro e periferia em SP

Filme entrevista urbanistas, jornalistas e políticos sobre a segregação socioeconômica em São Paulo

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2020 | 05h00

Nas eleições municipais de São Paulo, a necessidade de combate às desigualdades esteve presente no discurso dos dois candidatos que foram ao segundo turno. Cada um a seu modo, ambos fizeram promessas que, resumidamente, se comprometiam a levar a cidade do centro expandido, com saneamento básico, transporte e arborização, para os moradores da periferia, onde tudo falta. 

Essa diferença entre as duas cidades, o centro expandido e a periferia, é o objeto do documentário São Paulo – Uma Cidade Segregada, dirigido pelo fotógrafo João Farkas, que teve estreia para convidados no dia 4 de novembro e será exibido no canal Arte1 dia 11, às 22h30. Ele é exposto por meio de entrevistas com urbanistas, jornalistas e políticos que aparecem na tela em meio a imagens aéreas. A divisão, segundo Farkas, ultrapassa a distância física entre os bairros ou a separação econômica, para virar uma cisão cultural e ideológica – “uma cidade triste”, como resume o arquiteto e urbanista Ciro Pirondi, um dos entrevistados. 

O filme não é uma peça política no sentido de defender alguma bandeira ligada a algum partido formalmente constituído. “Não pensei em apontar soluções”, disse o diretor, por telefone, ao Estadão. Na conversa, ocorrida antes do primeiro turno, o diretor disse que não vinha acompanhando as discussões eleitorais ligadas à revisão do Plano Diretor da cidade, que poderá ser revisado no ano que vem. 

Ao ter sucesso em explicar todas as causas e consequências da segregação mostrada no filme, o diretor traz um sentimento de angústia ao espectador, como o de que algo precisa ser feito – justamente o sentimento que precisa ser despertado para que ações políticas aconteçam.

Urbanismo é um tema árido e São Paulo, uma cidade difícil. Assim, cativar o espectador não é tarefa das mais fáceis. Entre Rios, o elogiado documentário de 2009 de Caio Silva Ferraz, Luana de Abreu e Joana Scarpelini sobre como São Paulo canalizou, enterrou e poluiu os rios que possibilitaram o nascimento da cidade, usa animações e uma trilha sonora com chorinho para se tornar mais digerível. Já Farkas não atenua em nada: os dados mais incômodos são escritos na tela com letras garrafais e os mapas aparecem na cor vermelha.

O ponto central aqui é aquilo que os urbanistas veem como o grande problema de São Paulo: o baixo adensamento do centro. Já a periferia, que se expandiu por quilômetros, é um amontoado de casas térreas, construídas em locais distantes, sem que o poder público tenha fôlego financeiro (ou interesse) para levar a infraestrutura. 

A corrida desenfreada para todos os lados chega a um dos pontos que, pelo histórico do diretor, é um de seus temas mais caros. Farkas é um fotógrafo conhecido por retratar a natureza e a relação dela com o homem. Em São Paulo, homem e natureza se confrontam em Parelheiros, no extremo sul, descrita como “a última fronteira” da cidade, onde terrenos em mananciais são loteados por organizações criminosas. 

O filme acerta em todos os depoimentos que traz: do procurador-geral de Justiça do Estado, Mário Luiz Sarrubbo, que deveria fiscalizar as ocupações irregulares, passando pelo presidente da Câmara Municipal, Eduardo Tuma (PSDB), que deve pautar as leis urbanísticas, por ex-políticos, os mais importantes urbanistas da cidade e, em especial, os “personagens”, as pessoas escolhidas para mostrar a dificuldade de morar na periferia e trabalhar no centro. Como reportagem, o documentário é irretocável.

O diretor coloca, por exemplo, nomes como o do empresário José Paim, fundador do fundo de investimentos imobiliários Maxcap – e, portanto, um dos grandes atores do mercado imobiliário –, para explicar como essa construção de cidade prejudica os mais pobres. “Bairros que não têm nenhuma infraestrutura urbana, não há plano diretor, não há taxa de permeabilidade, não há recuos obrigatórios, não há áreas verdes, não há coisa nenhuma. Isso nós ignoramos.” 

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