Documentário 'Condor' explica a repressão política latina

Produção de Roberto Mader traz histórias humanas, de gente cuja vida mudou para sempre naquele período

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de abril de 2030 | 15h43

Por volta de 1970, Simon e Garfunkel cantavam, com direito a quena e tudo, o pássaro mais conhecido da Cordilheira dos Andes - "El concor pasa em cielo del Peru/Del Peru..." Naquela mesma época - um pouco depois -, o condor batizava um movimento coordenado das ditaduras sul-americanas, instaladas no Brasil, no Uruguai na Argentina e no Chile, para trocar informações e prisioneiros e coordenar a repressão política no continente, com apoio direto dos EUA. Muitas vidas foram destruídas na Operação Condor. Roberto Mader realiza agora o resgate do que foi aquela época sombria. Em vez de números, ou das frias análises políticas dos estrategistas, ele prefere o viés intimista. Conta histórias humanas, de gente cuja vida mudou para sempre naquele período tumultuado.   Veja também: Trailer de 'Condor'    "Tenho a impressão de que o filme ia passar pelas pessoas, se fosse feito de outra forma, mais focado nas estatísticas, por brutais que sejam, da Operação Condor. No limite, o que fica com o espectador é aquilo que eu queria atingir - a história da menina, emblemática de todo o período." A menina a quem Mader se refere chama-se Victoria e tinha apenas um ano e meio quando viu os pais serem assassinados. O irmão e ela foram levados para um orfanato em outro país, o Chile, onde e depois adotados. Trinta anos mais tarde, a avó biológica conseguiu localizá-los. O filme conta muitas dessas histórias, mas a dos uruguaios Victoria e Anatole talvez seja única porque as duas famílias, a biológica e a adotiva, se uniram.   Uma trama dessas parece coisa de ficção, mas aconteceu. Roberto Mader vivia no exterior, na Inglaterra, quando esse projeto começou a tomar forma. Demorou muito tempo, mas ele não quer explorar a idéia do cineasta - coitadinho - que demorou uma década para concluir seu projeto. Agora mesmo, ele está endividado - gastou o que não tinha -, mas feliz. Condor foi premiado no Festival de Gramado do ano passado e entra nesta quinta-feira, 1, em exibição no circuito comercial. O filme chega para esclarecer, mais do que para provocar polêmica.   Mader selecionou seu recorte e, com certeza, tem uma nítida preferência pelas vítimas dessa história, mas ele dá voz ao outro lado, aos carrascos, na tentativa de entender. Um dos depoimentos mais contundentes de seu filme é o do senador Jarbas Passarinho - ex-ministro dos governos militares -, que admite que houve um golpe de Estado no Brasil. Na definição de Passarinho, totalmente pró-golpe, "Nós tivemos de almoçá-los antes que eles nos jantassem". Não é todo mundo que têm essa coragem de assumir os próprios gestos. O personagem mais antipático de todo o imbróglio termina sendo o filho do ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Com o pai enfermo - e impossibilitado de falar -, ele aceita dar seu depoimento, mas cobra para isso.   Foi justamente a partir da prisão de Pinochet, em 1998, quando começou a se falar mais abertamente da Operação Condor, que Mader chegou à conclusão de que tinha de fazer o filme. No Chile e na Argentina, onde a repressão foi mais violenta - e o número de vítimas, maior -, sempre houve um forte debate sobre o que ocorreu. No Brasil, a tendência é esquecer os anos de chumbo. A própria decisão de oferecer uma reparação material às vítimas da repressão provoca controvérsia. "Tem gente no Brasil que ganhou fortunas dizendo-se vítima da repressão, enquanto a viúva do metalúrgico Manuel Fiel Filho (morto em 1976) ganha uma miséria. O chato disso é que cria na opinião pública uma aversão à reparação. Também é um fato que nenhuma reparação material consegue substituir o horror da outra reparação, a moral, a psicológica." Para chegar aos personagens, Mader teve apoio de ONGs e organizações humanitárias em diversos países, mas se você pensa que foi fácil, engana-se. "Até nessas organizações existe muita divisão interna."   Condor tinha muito mais histórias, que Mader foi abandonando. "Doía na sala de montagem quando a gente abria mão de depoimentos e de personagens. Mas o tema é pesado e o filme precisava ser pensado também como linguagem para chegar ao coração do público, que era o que me interessava." Histórias essenciais permanecem, como a dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz, seqüestrados em Porto Alegre, com apoio da polícia brasileira. O caso despertou talvez a primeira grande batalha da imprensa brasileira contra o regime. Hoje, a própria Lílian diz que o marido e ela foram salvos pela campanha desencadeada no Brasil. Outra história dolorosa é a de outra uruguaia, Sara Mendez, presa quando seu bebê tinha apenas 20 dias. O garoto foi criado por policiais. Ela conseguiu chegar até ele, mas o filho permanece dividido. Pode ser que essa preferência de Mader pelo recorte humano, familiar, tenha a ver com a situação que ele vive. Não - Mader não viveu eventos como os do filme, mas casou-se na Inglaterra, teve filhos, o casal se separou e hoje os filhos com a mãe, no exterior. Não é a mesma coisa, claro, mas este homem sensível - este diretor talentoso - entende a dor da separação. Seu filme fala disso numa potência muito maior, e mais terrível. Você poderá até se perguntar se essas coisas ocorreram de verdade. Sim, ocorreram, e nada trará de volta o que foi perdido. A reparação - moral - somente poderá atenuar o problema.     Condor (Brasil/2007, 103 min.) - Documentário. Dir. Roberto Mader. 10 anos. Ci-ne Bombril 2 - 18 h. Uniban-co Arteplex 8 - 16 h, 20 h, 22 h. Cotação: Bom

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