Documentário alemão discute adesão ao nazismo

Vergonha de ser alemã. Pelo nazismo. Durante muito tempo Claudia Von Alemann experimentou na pele esse sentimento terrível. Foi morar na França, substituiu o alemão pelo francês, como seu idioma. Refletiu esse sentimento em uma extensa obra de documentarista, uma mais reduzida obra de ficção. Claudia desembarca ainda esta semana no Brasil. Vem mostrar Era uma Vez um Duende (War Einst ein Wilder Wassermann) no 6.º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. O evento ocorre simultaneamente no Rio e em São Paulo. No Rio começa quinta-feira e, em São Paulo, na segunda, dia 2. E vai até 8, mostrando os mais importantes documentários feitos durante o ano em todo o mundo. O 6.º É Tudo Verdade homenageia, com retrospectivas, grandes nomes do documentário, no País e no exterior, figuras como Geraldo Sarno e Frederick Wiseman. Haverá muita coisa rolando no âmbito do festival. Muitos filmes para ver e também debates e mesas-redondas para acompanhar. Reserve desde logo espaço para o filme de Claudia."Ainda imersa no processo para entender o que ocorreu na Alemanha, voltei-me para minhas origens, fazendo um filme com minha mãe.", conta Cláudia. E ela explica - "Minha mãe é uma mulher simples; foi dona de casa a vida toda; queria entender como e por que ela aderiu ao nazismo e passou a considerar Hitler um grande homem, fascinada por ele." Embora nunca tenha desenvolvido uma carreira profissional, preferindo permanecer do lar, a mãe de Claudia pertence a uma família aristocrática, tradicional. Ao longo de quatro anos, a diretora fez duas baterias de entrevistas com a mãe. Começou em 1996, mas teve de parar durante quase dois anos, porque a mãe ficou doente. Pronto, o filme foi exibido num encontro de documentaristas em Montreal, no fim do ano. Estreou na TV alemã (WDR), sendo exibido em duas partes, na semana passada. A resposta do público foi emocional, intensa. E agora virão as exibições no Rio e em São Paulo.O filme baseia-se na entrevista que Claudia e sua filha fizeram com a mãe da diretora e avó da garota. Claudia sempre achou um mistério o fato de que a mãe, tão aristocrática, cedesse ao canto de sereia do nazismo. Fez uma descoberta para ela assombrosa. "Minha mãe estava cansada do meio aristocrático em que vivia e que se considerava superior, no contexto da Alemanha naquela época; quase como uma reação, na verdade como uma reação, ela aderiu a Hitler que proclamava, por meio da doutrina nacional-socialista, um igualitarismo que vinha de encontro ao idealismo de minha mãe."Atraída por essa promessa de uma sociedade mais justa, ela passou a idolatrar Hitler. Hoje, ela se arrepende por ter sido tão ingênua. Sente uma culpa profunda. Seu depoimento calou fundo nos telespectadores que assistiram à transmissão do documentário na rede WDR. "Nunca recebi tantos e-mails na minha vida, nunca ouvi tantas manifestações de pessoas, nas ruas", diz Claudia.

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