Documentário acompanha transformação de Teerã

São Paulo não tem mais garoa. Teerãnão tem mais romãs. Comparação grosseira à parte, pense em umametrópole que, no curso da história, perdeu não só apersonalidade provinciana mas parte dos símbolos que um dia adefiniram. Massoud Bakhshi é um jovem e premiado diretoriraniano, nascido em Teerã, que tenta realizar um documentáriosobre a capital de seu país. Não consegue. Em Teerã não Temmais Romãs, tenta explicar por que perdeu o fio da meada.Definir o que um dia foi "uma vila perto da cidade de Rei, cheiade jardins e árvores frutíferas" se tornou impossível para ele.Por isso, resolve escrever uma carta ao órgão que banca seufilme, justificando por que, em vez de finalizar o documentário,resolveu mudar o rumo da prosa. Rumo que não vai ser reveladoaqui. Afinal, apesar de se tratar de documentário, o filme fazuso consciente e criativo de técnicas de ficção e revelasurpresas na narrativa caleidoscópica e caótica, assim como aprópria cidade. Para tentar explicar o que aconteceu com sua "vila",Bakhshi recorre a antigos filmes, busca imagens de arquivoperdidas em prateleiras bolorentas, entrevista moradores, colocaa si e a própria equipe em cena. Em Teerã não Tem mais Romãs, mais que unir ficção e realidade, usa a metalinguagem. No início depois do breve prólogo, o letreiro avisa: "Isso parece verdade mas não é." Será? O fato é que o documentário, que ainda passa por tratamento de som, é testemunho da pulsante vida da capitaliraniana, que tem em sua região metropolitana cerca de 14milhões de habitantes. "Escrevemos o roteiro há cinco anos.Decidimos pesquisar sobre os primórdios da cidade nos órgãos decultura, mas não havia nada. Havia muito mais imagens antigassobre guerras. Foi preciso restaurá-las. Teerã não tem umahistória claramente escrita. É uma cidade jovem, em constanteconstrução", comenta o diretor, em São Paulo para a 30ª Mostra .Em vez de um hotel, preferiu ficar na casa de uma amigabrasileira, em Embu das Artes. Teerã não Tem mais Romãs passa muito longe do tipo defilme que vem à mente quando se fala em cinema iraniano. Anarrativa nada despojada de Bakhshi lembra a linha de pensamentodos filmes de Jorge Furtado: "Este é um operário, que imigroucom sua família do Curdistão, que veio construir tijolos emTeerã. Tijolos que vão formar os prédios da área nobre da cidade onde vão morar, em apartamentos de 300 metros quadrados, osmais ricos da cidade, assim como os donos das construtoras, quecontratam esses mesmos operários, que moram em cubículos de 20metros quadrados." Há uma ironia saudável que permeia as imagens. Talvezseja o único recurso para tentar explicar uma realidade tãocontroversa de uma cidade em que seus líderes, para"modernizá-la", resolveram adotar costumes ocidentais. Essamesma cidade é uma das mais intelectualizadas do mundo islâmico,mas, ao mesmo tempo, abriga grande número de analfabetos, quetambém não têm acesso a água potável. Qualquer semelhança com aterra da garoa não é mera coincidência. "Como qualquer outrametrópole, como São Paulo, Cidade do México e Nova York, Teerãtem problemas. Mas é também uma das cidades mais interessantesdo mundo", pondera Bakhshi. Teerã não Tem Mais Romãs (2006, 70 min.) - Unibanco Arteplex 4. R. Frei Caneca, 569, (11) 3472-2365. Quarta-feira, 19h

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