Documentário abre janela para universo iraniano

Se é verdade que cinema pode seruma janela para o mundo, a mostra Documentários IranianosIndependentes (Centro Cultural Banco do Brasil, de hoje a domingo cumpre essa função de maneira exemplar. É difícil que um conjunto de filmes esclareça tanto sobre um país para nós ainda envolto em mitologias e preconceitos. Não que o cinema iraniano seja um total desconhecido para o público brasileiro. Depois do sucesso internacional de nomes como Abbas Kiarostami, Moshen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Babak Payami, o país tornou-se um pouco mais visível e talvezcompreensível para os olhos dos ocidentais.No caso da mostra do CCBB, temos oportunidade deconferir não os trabalhos desses medalhões, mas de gente até então desconhecida e que tem seus filmes viabilizados pela ong Iranian Independents. O que se tem, no caso, é uma visão não-oficial da realidade do país, ainda severamente controlado tanto do ponto de vista cultural como político, apesar daabertura relativa que vive.A realidade iraniana, mais multifacetada do que seacredita, emerge de filmes como Três Mulheres do Cinema, Sozinha em Teerã, Encontro de Mulheres, Escola em Poder dasCrianças e Forough Farrokhzad: Vida e Obra. A situação dos refugiados afegãos no Irã está retratada em Afeganistão: A Verdade Perdida.Certamente não se trata de acaso a presençasignificativa da mulher no centro da discussão dos cineastas. De fato, a opressão masculina sobre a mulher parece ser um dos temas mais urgentes do cinema iraniano, tendo inclusive rendido um Leão de Ouro em Veneza para o filme de ficção O Círculo, deBabak Payami, em 2000. Nessa mostra de documentários temos, em filigrana, toda uma reflexão sobre a presença da mulher na sociedade iraniana. Desde o depoimento pungente da refugiada afegã que usa a burca, por costume, mesmo quando não está maisobrigada a isso, até a biografia da poeta pré-feminista Forough Farrokhzad, que tem sua vida e obra esmiuçadas em dois belos filmes de Nasser Saffarian. Em Encontro de Mulheres, de MahnazAfzali põe sua câmera em local inusitado: no interior de um banheiro público em Teerã. Por lá passam mulheres comuns, prostitutas e traficantes de drogas. Estranho lugar para essa espécie de psicanálise da alma feminina, que funciona muito bem do ponto de vista cinematográfico.Mais convencional, mas bastante informativo, é odocumentário sobre a poeta Forough Farrokhzad (1935-1967), mulher de beleza pungente morta na força da idade, com 33 anos. Forough foi feminista, criativa e independente no tempo do xá Rehza Pahlevi. Escreveu, militou e angustiou-se diante da realidade do seu país, na época ocidentalizado de maneira forçada e mergulhado em contradições culturais e sociais. Contradições que a própria Forough experimentou, vítima de umcasamento de conveniência aos 15 anos e desde então perseguida por uma depressão sem remédio.A inventividade típica do cinema iraniano aparece emtítulos como A Escola em Poder das Crianças, de Orod Zand, e Sozinha em Teerã, de Pirooz Kalantari. No primeiro, segue-se o costume de uma escola de entregar a direção a alguns alunos durante dois dias por ano. A disputa pelo poder e as dificuldades de gestão constituem um interessante microcosmo dasociedade como um todo. No segundo, faz-se o retrato de uma jovem de 24 que, como diz o título, vive só na capital do país. Em 25 minutos, os pensamentos, temores e esperanças de Behanaz Jafari passam pela tela. Ela estuda literatura (sintomaticamente prepara uma tese sobre a misoginia em Strindberg) mas deseja seratriz. Reflete sobre a condição feminina na sociedade iraniana, fala de casamento, filhos, sucesso e fama. Torna-se personagem de si mesma, o que é uma das melhores maneiras de se analisar tão objetivamente quanto possível. Por curiosidade, depois dodocumentário, Behnaz tornou-se de fato atriz, tendo trabalhado no longa O Quadro Negro, da sua compatriota Samira Makhmalbaf,e agora é uma profissional requisitada. Realizou o sonho e já não está só na cidade grande.Mostra de Documentário Iranianos Independentes - No Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112, centro, (11) 3113-3651. Terça a domingo, 15h, 17h, 19h30. R$ 4. Até 1.º/8. Programação: Hoje, 15h, Afeganistão: A Verdade Perdida, de Yassamim Maleknasr; 17h, Três Mulheres do Cinema, de Maani Petgar; hoje 19h30 e quarta, 15h, Concepção, de Niki Karimin - sessão gratuita.Quarta, 17h, Encontro de Mulheres, de Mahnaz Afzali, e Afeganistão: A Verdade Perdida, de Yassamim Maleknasr; quarta, 19h30, Forough Farrokhzad: Vida e Obra - 2 episódios, deNasser Saffarian. Quinta, 15h, Sozinha em Teerã, de Pirooz Kalantari, e Prisioneiros, de Mohammad Ahmadi; quinta, 17h, Poolkeh: Uma Cerimônia Religiosa, de Majid Sabagh-Behrouz, AVida É Assim, de Pirooz Kalantari, e A Pérola do Cáspio, de Mohammad Aldpoush; quinta, 19h30, Três Mulheres do Cinema, de Maani Petgar, e Respiro, de Ebrahim Asgharzadeh.

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