Jigsaw Productions
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Documentário aborda as precauções que os principais líderes globais deixaram de tomar na pandemia

'Sob Total Controle' está na programação da 26ª edição do festival É Tudo Verdade

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

10 de abril de 2021 | 10h00

Num balanço das tendências apontadas pela seleção do 26º É Tudo Verdade – em cartaz até o dia 18, online, na plataforma Looke –, seu organizador, o crítico Amir Labaki, destacou que o contágio da covid-19 também atingiu a diversidade temática de sua curadoria, numa resposta urgente do cinema documental a uma das maiores tragédias do planeta, retratada em tons políticos, como um “filme catástrofe”, em produções como Sob Total Controle.

Nele, todas as precauções que alguns dos principais líderes globais deixaram de tomar, para proteger suas populações são catalogadas, analisadas e debatidas, com especial foco na administração dos Estados Unidos, a partir de março de 2020, quando a contaminação começou a se espalhar e, com ela, o negacionismo. Com sessão única neste sábado, 10, às 19h, Totally Under Control (título original) foi escrito e produzido por um dos mais aclamados documentaristas americanos: Alex Gibney, ganhador do Oscar por Um Táxi Para a Escuridão (2007).

Gibney dirige seu novo longa-metragem – o mais esperado da competição internacional arquitetada por Labaki – a seis mãos, com Suzanne Hillinger e Ophelia Harutyunyan, que conversou com o Estadão sobre a reação do audiovisual à pandemia, num gesto de alerta ou numa triagem por culpados em relação ao descontrolado avanço da doença. No caso americano, esse culpado, segundo a trinca de cineastas, é Donald Trump, o ex-presidente que deixou a Casa Branca cercado de ódio, mas preservando fãs.

“Quando aconteceu a invasão ao Capitólio, em janeiro, com uma horda recusando a chegada de Joe Biden e querendo que Trump ficasse, aquele episódio só nos deu a certeza de que ele lutou muito para ficar. A invasão em si não foi uma surpresa para mim. Surpresa foi saber que alguém pôde se surpreender com isso”, critica Ophelia, em entrevista via WhatsApp, explicando como o filme foi construído, em paralelo à corrida eleitoral americana, com ela e seus colegas confinados. “A gente ouviu muitas análises, em podcasts, logo que a quarentena começou. A partir das análises, formos selecionando materiais e coletando dados, buscando mostrar como a vida era e como ela ficou, até o momento em que a edição terminou. Há muitos documentários sobre a covid-19 já em curso. Cada um deles traz um olhar. Alguns falam das reações afetivas a como as pessoas estão sobrevivendo. Há filmes sobre funerais das vítimas. A gente optou por fazer uma espécie de cápsula simbólica do tempo, deixando para o futuro um testemunho do que os governos fizeram.”

Vinda da Armênia, para onde espera viajar em breve a fim de rodar um curta-metragem de ficção, Ophelia vive há 9 anos nos em Nova York, no Brooklyn, onde só tem saído para passear com sua cachorra, Frida. “Tem um hospital aqui perto de casa e eu sempre via uma massa de pessoas à espera de atendimento, com problemas respiratórios. Também os corpos saindo. Essa vivência é só mais um indício do desastre diante da gente, o que levou Sob Total Controle, já em sua fase de montagem, a receber um tratamento de filme de terror, inclusive na trilha sonora”, diz a cineasta, explicando como o documentário operou um exame aprofundado da forma como o governo Trump respondeu ao surto da covid-19 nos primeiros meses da pandemia.

No arco de tempo coberto pelo longa, 7 milhões de americanos haviam contraído o vírus. Desde então, o número de infecções no país subiu para 29 milhões. Em outros países, esse número também cresceu, seja sob o expoente do despreparo, seja pela recusa de alguns em usar máscaras, como mostram Ophelia, Suzanne e Gibney, numa reflexão sobre a ignorância que veio (e ainda resiste) no lastro do coronavírus. É o caso das imagens de Trump negando a gravidade da emergência média à sua frente.

“A arma principal dos ditadores são as fake news, porque elas torcem o senso do que seria a verdade, deturpam o factual. Trump apostou nisso. O que a gente tentou aqui foi retratar como elas foram criadas, indo para além delas, encontrando e mobilizando plateias que ainda não estivessem convencidas de falácias. Mas, para esse procedimento funcionar, a gente não podia jamais fazer gracinha com Trump, nem tratá-lo de maneira desrespeitosa. Precisávamos apenas nos concentrarmos nos fatos, dando a eles uma abordagem sensorial, narrativa, pois é cinema e não jornalismo”, diz Ophelia, que ganhou dois prêmios com o longa – de melhor montagem e melhor argumento – no Critics’ Choice Documentary Awards.

Em sua estreia nos Estados Unidos, em outubro, já próxima da eleição de novembro, a documentarista conta não ter encarado rejeição, mesmo retratando americanos que se recusaram a acreditar na periculosidade da covid-19. “A gente nunca chegou a enfrentar nenhum tipo de censura ou veto, mesmo falando do então presidente, mas tínhamos medo que influenciadores pudessem, de alguma forma, pressionar nossas fontes”, diz Ophelia. “Para expor o que estava ao nosso redor, precisávamos construir uma experiência cinemática forte. O caminho para isso foi deixar o lado emocional falar, o nosso e o das próprias narrativas documentais, criando um filme que comovesse.”

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