Documentário 'À Queima-Roupa' estreia em São Paulo

Documentário 'À Queima-Roupa' estreia em São Paulo

Filme que exibe a brutalidade da polícia carioca tem sessão especial no Espaço Itaú Frei Caneca nesta quinta-feira, 13, com presença da diretora Theresa Jessouroun

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 15h13

No estapafúrdio loteamento de prêmios do Festival do Rio, no começo de outubro, o júri conseguiu o prodígio de dar Redentores a praticamente todos os filmes da competição de ficção, menos o melhor deles – Casa Grande, de Fellipe Barbosa. Em compensação, o júri redimiu-se fazendo a coisa certa na categoria documentário. Venceu como melhor filme À Queima-Roupa, de Theresa Jessouroun, que também foi a melhor diretora. Se o cinema volta e meia celebra a coragem pessoal como qualidade, então pode-se dizer que Theresa é uma mulher de fibra. O filme dela expõe o que tem sido a violência da polícia no Rio nos últimos 20 anos, desde o tristemente célebre "massacre de Vigário Geral". Ela diz que não se trata de coragem. Prefere utilizar expressões como "consciência" e "ética".

Seja como for, À Queima-Roupa – com o mesmo título do thriller de John Boorman com Lee Marvin, de 1967 – é não só um filme necessário, como impactante. Por meio de entrevistas e encenações, falando com sobreviventes, familiares de vítimas e colhendo o depoimento do informante Ivan Custódio Lima, Theresa construiu um daqueles documentários que fazem a diferença. E nesta quinta-feira, 13, que o filme estreia em São Paulo, você terá a oportunidade de participar de um encontro da diretora com o público no Espaço Itaú Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569, 3º Andar), às 19h20 (exibição seguida de debate).

Com rigor, Theresa mostra o processo de intimidamento que a polícia exerce nas comunidades cariocas. Não é só um exercício de dominação e poder. Na maior parte dos casos, obedece a um objetivo econômico. Os policiais substituíram criminosos, viraram eles próprios os bandidos no tráfico. Um promotor exibe dados que comprovam que 100% - a totalidade – das chacinas realizadas no País são obra de policiais. E há agora um subterfúgio. Nas UPPs, desaparecimentos passaram a substituir as mortes. Sem corpos, não se configura o crime. Que País é esse? Tantas vezes a pergunta já foi feita, mas quase sempre com objetivos específicos. Discute-se muito a corrupção da política, e ela tende a ser generalizada. Já a da polícia é mais delicada. O político põe dinheiro roubado na cueca. O policial saca da arma.

Estudos realizados no País e no exterior provam que a polícia brasileira é a mais violenta do mundo, e que a carioca é a mais violenta do Brasil. As desigualdades sociais podem alimentar esses dados, mas não explicam tudo. Há uma mídia sensacionalista que está, irrestritamente, do lado da polícia, mesmo quando assassina. Em torno de 44% dos brasileiros concordam com as mortes nas comunidades – o problema é que a polícia está matando trabalhadores, não bandidos. A polícia ataca até a lei que deveria representar e defender. Pois não foram policiais que mataram a juíza Patricia Accioli na porta de sua casa? A juíza descobrira seus crimes e ameaçava prendê-los. Eles se anteciparam.

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