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Docudrama sobre Edvard Munch é uma vista do abismo

O premiado diretor inglês Peter Watkins assina o longa e ambiciosa versão da vida do maior pintor moderno norueguês

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 03h00

O cineasta inglês Peter Watkins é autor de obras de referência na história do cinema, seja como pioneiro do ‘docudrama’ – gênero que une documentário e dramatização – ou como provocador político que usa amadores para interpretar personagens bem próximos aos papéis que representam na vida real. Watkins, a despeito de ter faturado um Oscar de melhor documentário com The War Game (O Jogo da Guerra, 1966), sobre uma possível guerra nuclear, sempre foi considerado persona non grata na Inglaterra. Tanto que hoje, aos 80 anos, mora na Lituânia, depois de perambular por outros países. Foi durante uma viagem ao território escandinavo, nos anos 1970, que Watkins, diretor de Privilégio, filme síntese da Londres pop dos anos 1960, realizou Edvard Munch (1974), minissérie produzida para a TV e depois transformada num longa com quase quatro horas de duração.

É uma cinebiografia exemplar, que Bergman considerou “obra de um gênio”. Mesmo assim, Watkins teve problemas com os produtores suecos, insatisfeitos com a versão da vida do maior pintor expressionista moderno da Noruega. A razão: Edward Munch é um docudrama não linear. Vai e volta ao passado, traçando correspondência entre a infância e a maturidade do pintor, que terminou seus dias depressivo e vagando de clínica em clínica. Tratando dos anos de formação do artista (entre 1884 e 1894), Watkins examina particularmente sua relação com a família doente – a irmã e a mãe morreram tuberculosas; o pai beirava a insanidade. Sobram farpas para a sociedade norueguesa da época, puritana e hipócrita, capaz de legalizar a prostituição, mas não proteger suas crianças do trabalho escravo. O diretor usa amadores, que olham direto para o espectador, como num documentário, transformando-o em testemunha do conflito de classes na Noruega.

Watkins é uma prova de que o cinema político não é sinônimo de panfleto. Para ser genuíno, é preciso encontrar o tom exato, justo. Assim, ele convocou críticos que odeiam a pintura de Munch para opinar sobre sua revolução expressionista, desmontando suas inovações formais – as opiniões dos atores que participam da exclusão do artista num salão de Berlim são reais, não estavam no roteiro. O que pensam hoje esses críticos conservadores não é diferente das opiniões de seus colegas no passado, que obrigaram Munch a abandonar a Noruega e buscar na liberal Berlim um ambiente mais respirável, onde se torna amigo do dramaturgo sueco August Strindberg.

É dessa relação, aliás, que surgem as telas mais dramáticas de Munch, como sugere Watkins. Ao colocar em perspectiva a misoginia de Strindberg, ele atribuiu à influência do dramaturgo sua representação da mulher como uma figura vampiresca, que mina as energias do macho – como na tela Vampira, pintada em 1895, uma projeção do relacionamento entre Munch e a amante casada, que o humilhava publicamente. Sem seus traumas e neuroses, a pintura de Munch, desconfia Peter Watkins, não seria a mesma.

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