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Do BBB para o Oscar

Documentário é o gênero que mais me toca, me impressiona e me transforma

André Fran, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 03h00

Flanava eu pelo Twitter, como faço todas as manhãs, quando percebi que estava por fora do grande tema do momento. Não adiantava falar dos números alarmantes da pandemia de covid-19, dos desmandos do nosso governo nesse período ou do caos político no Oriente Médio, o povo queria saber mesmo era de BBB, o reality-show Big Brother Brasil alçado à fama pela Rede Globo mais de 20 anos atrás. Resolvi então dar uma chance ao programa na tentativa de me enturmar no papo que dominava as redes sociais. Corta para 60 dias depois e estou eu sofrendo com a falsidade de Vihtube, indignado com a perseguição ao divertido Gil do Vigor e participando de mutirões de votos para eliminar a rapper Karol Conká do programa com recorde histórico de rejeição. 

Foi em uma dessas noites, lutando contra o sono para acompanhar a movimentação na casa mais vigiada do Brasil, que me deparei com uma cena em que o personagem Caio Afiune (eliminado nesta terça, 20) comentava o filme a que assistiu no “Cinema do Líder” (o participante que vence a prova do líder na semana tem, entre outras regalias, a oportunidade de assistir a um lançamento da Globo Filmes). A produção em questão era Falas da Terra, documentário que destaca as vozes e cultura dos povos indígenas brasileiros. Caio é um fazendeiro de Goiás que ficou mais conhecido no programa pela amizade com Rodolffo, cantor sertanejo e seu conterrâneo, eliminado da atração após manifestar opiniões homofóbicas e racistas. “Os índios perderam as suas terras, foram perseguidos e são os verdadeiros donos disso aqui!”, bradava em tom de denúncia para seus colegas de confinamento. O agroboy defendia causas indígenas graças ao poder do audiovisual.

Assim como o Caio do BBB, eu também sou fã de documentários. É o gênero que mais me toca, me impressiona e me transforma. Mais que isso: fiz do jornalismo documental a minha carreira. Meu primeiro registro profissional, lá se vão mais de dez anos, foi um doc sobre o tsunami de 2004 que fez mais de 200 mil vítimas e arrasou boa parte do sudeste asiático. O filme batizado de Indo.doc (a criatividade para títulos nunca foi meu forte) mostrava uma ação entre amigos que transformaram o que seria uma viagem de surfe em uma expedição ao epicentro de um dos maiores desastres naturais de nossa geração. 

Uma empreitada que nos rendeu alguns prêmios internacionais e um contrato para dar continuidade ao projeto na TV, onde estou até hoje. Desde então: assisti, pesquisei, criei, dirigi uma série de reportagens documentais. E criei uma relação de amor (e as vezes ódio) com esse gênero que nos permite acessar realidades tão diferentes das nossas. Ao testemunhar a paixão com que Caio discorria sobre uma causa que havia conhecido poucas horas atrás numa telinha de TV, percebi que o poder transformador dos documentários também tinha fisgado o “brother”. Passei o dia seguinte a esse episódio refletindo sobre essa paixão que unia o jornalista que vos escreve e o bem-sucedido agropecuarista do reality show mais popular do país. Seria essa uma paixão antiga de Caio ou um novo amor nascido durante sua estada nas terras do Projac? Quais seriam seus diretores favoritos? Suas maiores referências? Será que ele prefere documentários observativos, participativos ou reflexivos? 

Caio deixou a casa a tempo de conferir os indicados ao Oscar de Melhor Documentário de 2021. Com certeza não estava em seus planos sair antes da grande final e a premiação (do Oscar, no caso) já ocorre no dia 25, mas fiquei com vontade de contar para ele que meu subgênero preferido no cinema documental é o dos documentários jornalísticos. As reportagens em forma de filme que revelam verdades escondidas e confrontam temas espinhosos com questionamentos de coragem. Acho que meu camarada ia ficar feliz se, ao sair do confinamento, Tiago Leifert lhe informasse que este ano temos belos exemplares na categoria “Melhor Documentário”, no Oscar.

Collective, por exemplo, é uma produção romena que mostra o trabalho de jornalistas investigativos para revelar a corrupção no sistema de saúde de seu país após um incêndio fatal. É o meu favorito! Acho que o tema de denúncia também vai comover meu camarada cinéfilo. Outra excelente produção entre os indicados é Crip Camp (Netflix), que mostra um acampamento de verão para crianças com deficiência nos EUA dos anos 70. Uma bela história sobre o poder do ativismo com produção executiva, e selo de qualidade, do casal Barack e Michelle Obama. 

Muitos críticos apostam na vitória de Time (Amazon Prime), que narra a luta de uma mãe de seis filhos para libertar seu marido condenado a 60 anos de prisão. Outro belo filme que reforça o caráter social dos indicados desse ano. A lista é completada por Agente Duplo (Globoplay), filme original sobre um idoso que investiga abusos em um asilo no Chile, e Professor Polvo, xodó da Netflix que tenho medo de ser cancelado se confessar nas redes sociais que não suportei chegar à metade. 

Meu futuro companheiro de dicas de documentários concordaria comigo que, se esse ano temos belas amostras de filmes, em termos de qualidade as produções estão aquém das de anos anteriores. Se continuasse na casa, conseguiria vê-lo acordando o professor João Luiz no Quarto Colorido e o agarrando pelos colarinhos para descrever revoltado os abusos trabalhistas em uma fábrica chinesa instalada em Michigan, nos EUA, tema de Indústria Americana, vencedor da categoria em 2020. Ou chamando de canto o seu camarada Arthur Picoli, o crossfiteiro incompetente, para revelar consternado que Bryan Fogel, diretor do premiado Icarus (Netflix), que revelou a rede de doping do Comitê Olímpico da Rússia, foi preterido este ano com seu O Dissidente, sobre o assassinato do jornalista Jamal Kashoggi por oficiais ligados a Mohammed bin Salman, líder de facto da Arábia Saudita. Imperdoável, meu camarada.

Como foi a vontade dos internautas em devolvê-lo ao mundo real prematuramente, eu o convido desde já a organizar comigo um grande evento (virtual, claro) para acompanharmos o Oscar deste ano. Com direito a pipoca, bebida, decoração temática e traje de gala. Me comprometo até a adiantar a parte dele na produção. Certeza que meu novo amigo é bom pagador. 

*É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

 

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