"Divinos Segredos" é constrangedor

Até quem gosta de antiquários,arqueologia ou queimar sutiãs vai se decepcionar: DivinosSegredos não passa de uma constrangedora relíquia dofeminismo. Ultrapassado, flácido e cheio de excessos, seu roteirosó deveria ter coragem de se olhar no espelho depois de umalipoaspiração. Suas atrizes usam suas falas como quem usa umestojo de maquiagem - e, por mais que até Ashley Judd insista emaparecer de rosto lavado, seu desprendimento também é só umapose. Nada no filme resiste à perpétua sedução do pó de arroz:Divinos Segredos nunca consegue encarar sua platéia sem estarmaquiado. Divinos Segredos é o primeiro filme que Callie Khouridirige e, se houver alguma justiça no universo, deverá tambémser o último. Ninguém poderia acusar de frenético seu ritmo detrabalho: Callie Khouri ganhou alguma reputação ao assinar oroteiro de Thelma e Louise há mais de dez anos, e temsobrevivido praticamente do estranho mérito dessa autoria. Naépoca, num admirável esforço para discutir a questão daigualdade entre homens e mulheres, Callie Khouri escreveuThelma e Louise pretendendo assegurar a todas as mulheressensíveis o importante direito de se comportarem como umcaminhoneiro. Divinos Segredos quer assegurar a todas odireito de se comportarem como um estereótipo. Em Divinos Segredos, Sandra Bullock interpreta umadramaturga famosa que acaba rompendo relações com sua mãe depoisde revelar certas memórias familiares numa entrevista para arevista ´Time´. A entrevista tem o efeito da descoberta dealguma rejeição numa letra de tango: todo mundo de repenteparece decidido a acertar contas com a maternidade. Depois deser raptada por três amigas de infância de sua mãe -interpretada por Ellen Burstyn -, Sandra Bullock é levada parauma cabana no Sul, perto de onde moram seus pais, e iniciada nossegredos íntimos de sua família. Os Divinos Segredos do título assim, são menos de Deus que de Ellen Burstyn e suas trêsmelhores amigas - que adoram se referir a si mesmas como aFraternidade Ya Ya, numa fórmula que parece o soluço de algumgago otimista. A moral da história não é particularmenteelaborada: Ellen Burstyn quer provar mais uma vez que ser mãe épadecer no paraíso e Sandra Bullock que ser filha é padecer emLouisiana. Como se quisesse testar os limites de credulidade de suaplatéia, a diretora convidou Ashley Judd para interpretar ajovem Ellen Burstyn - e, como se quisesse testar os limites desua própria credulidade, Ashley Judd aceitou. Divinos Segredos naturalmente, não consegue admitir personagens masculinos commuita boa vontade: James Garner, por isso, se limita a passearde um lado para o outro com a resignação de um garçom caladoservindo coquetéis sem álcool numa casa de repouso para aterceira idade. Fionnula Flanagan interpreta um clichê, ShirleyKnight interpreta um clichê, e Maggie Smith interpreta MaggieSmith. Callie Khouri conta sua história num vaivém maçante,avançando e recuando nos anos como se estivesse brincando decabra-cega com o tempo - e com nossa paciência. Deveria tertentado algum outro jogo. É só uma pena que seu público não possa tentar nada maisoriginal para desfazer a impressão de ter entrado sem querer nasreuniões fechadas de um grupo de gralhas na menopausa - um grupocuja única alegria é tagarelar o tempo todo sobre a relaçãoentre mães e filhas. Com a agravante de que a perspectiva detodas é sempre a de uma tia-avó.

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