Divertido e inteligente, 'Agente 117' estréia nesta sexta

Diretor Michel Hazanavicius e a atriz Bérénice Bejo falam sobre filme que foi campeão de público na França

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de julho de 2009 | 15h47

Seu pai era um cinéfilo apaixonado que criou a filha assistindo a velhos filmes com as estrelas míticas de Hollywood. Bérénice Bejo assimilou aquelas lições de sensualidade e glamour para sua personagem em Agente 117, que estréia na sexta-feira, 11, na cidade. O filme estourou nas bilheterias francesas e foi um sucesso muito grande de público, há três anos. Tão grande que seu marido, o diretor Michel Hazanavicius, conclui atualmente a seqüência, com estréia prevista para o começo do ano que vem. A seqüência do Agente 117 foi filmado no Brasil, no Rio de Janeiro e em Brasília, mas nenhuma visita de jornalista ao set foi autorizada. Bérénice e Hazanavicius ficaram fascinados pelo Brasil, pela ‘mélange’ de beleza natural e diversidade cultural. Veja também:Trailer de 'Agente 117'   Mas ela corrige o repórter quando ele diz que o cinema francês que faz sucesso no Brasil é o de autor, não propriamente o comercial. Filmes que arrebentam na França muitas vezes têm desempenho medíocre nas salas brasileiras. Enquanto isso, Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais, completa (no dia 13) um ano ininterrupto de cartaz no HSBC Belas Artes. A correção de Bérénice é veemente - "Mas o filme de Michel, o nosso filme, não é comercial. É até bastante intello (intelectual)", ela observa. Tão intelectual que até a sisuda Cahiers du Cinéma rendeu-se ao charme do Agente 117, dizendo que o filme reanima uma categoria pouco explorada na França - "a do divertimento de alto nível, como o próprio (Alfred) Hitchcock qualificava algumas de suas maravilhas ditas menores". O personagem do Agente 117 (como o Agente 86, já em cartaz) pode ser pouco conhecido do público brasileiro, mas surgiu na França, nos anos 50, criado por Jean Bruce. De certa maneira, OS 117 foi a vanguarda para James Bond, embora parecesse o contrário quando o cinema francês, em pleno surto de 007, filmou as aventuras de Hubert Bonisseur de la Bath (o nome do personagem). Era interpretado por Kerwin Matthews, que o diretor Andre Hunebelle substituiu, em dois filmes, por Frederick Stafford, que foi o agente duplo de Topázio, de Alfred Hitchcock (em 1969). Bérénice e Hazanavicius conversaram pelo telefone com o repórter do Estado. Ambos estavam em Paris. Ela, em casa. Ele chegou logo depois, vindo da sala de edição do novo Agente 117. Na França, o primeiro filme foi recebido como uma paródia de espionagem, e como tal recebeu os favores do público e da crítica. Hazanavicius não está 100% de acordo. "Por definição, a paródia é uma imitação cômica em que se ridiculariza, ou satiriza, uma obra dramática ou trágica. Não foi isso que fiz. Uso o humor, com certeza, mas o que proponho é um détournement." A palavra possui vários significados - desvio, diversão e aquele que Hazanavicius está querendo empregar, reencaminhamento. Seu filme parte de elementos tradicionais, mas que ele reencaminha para outra coisa. Para uma investigação da linguagem e dos próprios códigos de um cinema de ação e suspense. Sem dúvida que Alfred Hitchcock foi uma referência - o de Ladrão de Casaca e Intriga Internacional. Na trama, o herói, interpretado por Jean Dujardin - "Ele é um astro na França, muito apreciado por seu humor inteligente", diz o diretor -, é enviado ao Cairo pelo presidente René Coty para frustrar os planos de uma seita belicosa e, já que está lá, para ‘apaziguar’ o Oriente Médio. Hazanavicius situou a ação no fim dos anos 50, interessado em confrontar seu herói - atrapalhado, mas, no limite, ele sempre realiza as missões para as quais é designado - com a Mossad, a agência de espionagem de Israel, e uma fauna de personagens que o espectador, inconscientemente, espera encontrar no gênero. Eles estão todos lá, mas nem sempre da forma esperada, e esta é uma das graças do filme. "O roteiro de Agente 117 foi muito trabalhado. Não há nada ali que seja produto do acaso, ou não tenha sido pensado", diz Hazanavicius, que trabalhou em parceria com o roteirista Jean-François Halin, famoso como dialoguista de um popular grupo de comediantes franceses (os Nuls). O principal desafio é explicado por Bérénice Bejo. "Michel nos treinou, a mim, a Jean (Dujardin) e ao restante do elenco, para que disséssemos nossas falas de uma forma ligeiramente defasada, como ocorria na dublagem de velhas séries, nos primórdios da televisão." Está aí a origem do détournement proposto pelo autor. Ele reinventa - ou subverte - as fontes clássicas da comédia de ação, ou de aventuras, de Hollywood, como se seu cinema fosse filtrado pela TV. É um partido inteligente e ousado, no sentido de que não é fácil de levar, mas Hazanavicius consegue. O diretor achou que seria legal explorar a mitologia do Oriente Médio, com Mossad, nazistas, todo tipo de espiões (e sexys mulheres fatais). Para o segundo filme, ele resolveu mudar tudo, a começar pela ambientação. E veio para o Brasil. "A paisagem brasileira é perfeita para evocar um certo exotismo no imaginário do público europeu. Ao mesmo tempo, no Brasil dos anos 60 havia a bossa nova, Brasília. Uma grande agitação cultural que partindo da arquitetura e da música atingiria o futebol - a Copa do Mundo - e o cinema - o Cinema Novo. "Está sendo muito estimulante brincar com tudo", ele garante.

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