Diversidade dá o tom das estréias nos cinemas

É o mais forte ataque de Hollywoodao racismo, desde que Milos Forman fez Na Época do Ragtime,nos anos 1980. Só isso já antecipa o que o espectador vaiencontrar em Ali, o filme de Michael Mann com Will Smith nopapel do lendário pugilista Cassius Clay, ou Muhammad Ali, comoele passou a se chamar, após converter-se ao islamismo. Alitambém é o mais poderoso filme sobre boxe desde TouroIndomável, de Martin Scorsese, mas todas essas qualidades,pelo visto, não tornam o programa atraente para a Fox, que estálançando Ali em cinco salas na periferia de São Paulo. Comoo filme fracassou nos EUA, a distribuidora não tem muitaexpectativa de que venha a faturar aqui. Para você ver comoAli é bom: Na Época do Ragtime também andou mal nasbilheterias americanas. O público de lá, com certeza, sentiu-seagredido pelo olhar que os autores lançam sobre uma sociedade declasses que exclui o negro.Ali é um filme sobre um homem que solta e aprende adomesticar seus demônios, que também são expressões de umasociedade em crise. Confirma o imenso talento do diretor Mannapós O Informante e dá um bom contraponto a Dívida deSangue, talvez o thriller mais sereno da carreira do ator ediretor Clint Eastwood. Na aparência, é só mais uma história deserial killer. Eastwood faz o tira número 1 da corporação.Persegue um matador em série que faz dele o seu porta-voz. Logono começo, o herói fica a um passo de atingir seu objetivo, massofre um ataque cardíaco que o inutiliza para a força policial.Encostado, ganha o coração de uma mulher e é aí que entra emcena a irmã da doadora, pedindo ao policial que prenda o homemque matou essa última. Eastwood começa a investigar e descobreque o assassino serial está de volta.Todos ao seu redor correm perigo, não restando ao heróioutra opção que não a de levar até o fim a caçada. A novidadedesse thriller está no fato de bater, no peito do herói, umcoração de mulher. Será por causa dessa inesperada porçãofeminina que o machão se humaniza ou será pela pressão das trêsmulheres que o envolvem com seu carinho: a médica interpretadapor Anjelica Huston, a garçonete de Wanda de Jesus - que chegaao fundo do coração do herói - ou a antiga colega de corporação,Tina Lifford? São mulheres que pertencem a etnias diferentes(uma wasp, outra chicana e a terceira, negra) e é essadiversidade sociocultural que ajuda a conferir significado aofilme, cujo tema, no fundo, é a construção do casal, da família.Clint não é só um ator e diretor. É um mito. Vê-lo expor seussentimentos no crepúsculo da vida é uma emoção intensa que fazcom que sejam minimizados os possíveis defeitos de Dívida deSangue. Há mesmo certas facilidades no que se refere àrevelação da identidade do criminoso. Não diminuem a texturadesse o drama humano que remete à vertente mais intimista dacarreira do astro, aquela de filmes como Um Mundo Perfeito eAs Pontes de Madison.Existem, ainda, outras estréias a considerar, além dasduas nacionais - Madame Satã e Lara. Casamento Grego, de Joel Zwick, com roteiro de Nia Vardalos, virou um fenômenode público nos EUA. É aquilo que os americanos chamam de"sleepy": o pequeno filme que estoura na propaganda boca a bocae alcança os primeiros lugares nas bilheterias. A história dagarota grega que a família empurra para o casamento e ela sabeque é um patinho feio, terminando por desabrochar no encontrocom o homem certo, tem alguma coisa das qualidades de FeitosUm para o Outro, a comédia de Robert B. Bean com Renee Taylore Joseph Bologna nos anos 1960 que vive passando na TV - com adiferença de que lá a cultura em xeque era a italiana e não agrega.Os demais filmes que completam os lançamentos são: AMão do Diabo, terror ultraviolento do ator Bill Paxton, que sereservou um dos papéis nessa história de um assassino em sérieque se auto-intitula a mão vingadora de Deus, e Tudo por UmSegredo. Este último, co-produzido pelo astro George Clooney(que está no elenco) e por Steven Soderbergh, é subproduto deOnze Homens e Um Segredo. Conta a história de golpista quetem de dar um jeito de sair da cadeia para executar um grandeassalto. O elenco de apoio inclui os ótimos William H. Macy eLuis Guzmán. E há ainda Encontro Inesperado, do francêsChristian Carion, sobre mulher da cidade grande que descobre umnovo sentido para a vida ao dar duro no trabalho de uma fazendapertencente a velho ranzinza. A história é reduzida ao mínimo eo que conta, aqui, é o encontro de Michel Serrault com a irmãmais talentosa da senhora Roman Polanski, Emmanuelle Seigner -Mathilde Seigner é 10, você vai ver.Ali (Ali) Drama.Dir. Michael Mann. EUA/2001. Dur.160 min. Livre.Casamento Grego (My Big Fat Greek Wedding) - Comédia.Dir.Joel Zwick. EUA/2002. Dur. 96 min. Livre.Dívida de Sangue (Blood Work) - Ação. Dir. ClintEastwood. EUA/2002. Dur. 108 min. 14 anos.Encontro Inesperado (Une Hirondelle a Fait le Printemps). Drama. Dir. Christian Carion. Fr/2001. Dur. 103 min. 14 anos.A Mão Do Diabo (Frailty) - Suspense. Dir. Bill Paxton.EUA/2001. Dur. 100 min. 16 anos.Tudo por um Segredo (Welcome to Collinwood) - Comédia.Dir. Anthony e Joe Russo. EUA/2002. Dur. 86 min. 12 anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.