Diversidade dá o tom ao Festival de Gramado

Em sua 32.ª edição, o Festival de Gramado homenageia duas importantes personalidades do audiovisual brasileiro: o ator Lima Duarte e a diretora Tizuka Yamasaki. Ele tem grandes papéis em filmes como Sargento Getúlio, premiado em Gramado, e Eu Tu Eles. Ela possui longa atividade televisiva. Dirigiu a novela Kananga do Japão, na Manchete, e minisséries como O Pagador de Promessas, na Globo. Tizuka vai receber o Troféu Eduardo Abelim, que leva o nome do pioneiro do cinema gaúcho. Lima Duarte receberá o Troféu Oscarito, que honra o lendário comediante que formava dupla com Grande Otelo nas chanchadas da Atlântida. Por mais importantes que sejam as homenagens, um festival de cinema vale pelos filmes que apresenta. Gramado oferece este ano uma súmula da produção brasileira e latina. Na entrevista que deu ao Estado, a roteirista e produtora Rita Buzzar disse que Olga é uma vitrine do atual estágio do desenvolvimento técnico e industrial do cinema brasileiro. Ela disporia de mais recursos se tivesse aceitado as ofertas de parcerias estrangeiras que lhe foram feitas - com o cinemão alemão, por exemplo. Mas ela queria um filme brasileiro, com atores, técnicos e um diretor brasileiro. O novelão que Jayme Monjardim adaptou do livro de Fernando Morais pode ter 1.001 defeitos, mas é um dos filmes mais bem produzidos da história do cinema nacional. Você acredita naquele campo de concentração na Alemanha, sob a neve, que o diretor filmou em estúdio, no Rio, sob um calor de 40 graus. Direção de arte e fotografia são impecáveis. Olga abre o Festival de Gramado deste ano fora de concurso. Na seqüência, hoje mesmo, passa o primeiro filme brasileiro da competição - O Quinze, que Jurandir Oliveira adaptou do romance de Rachel de Queiroz ambientado na grande seca que assolou o Ceará, em 1915. Os demais longas da competição tratam de assuntos que podem ser polêmicos. Araguaya, Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, reconstitui os anos de chumbo da ditadura e a história da guerrilha. As Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, reúne o maior elenco negro da história do cinema no País (Milton Gonçalves, Rocco Pitanga, Kadu Carneiro, Zózimo Bulbul, Ruth de Souza, Lea Garcia e Taís Araújo) para avaliar a herança da escravidão. É logo após a abolição da escravatura que se desenrola O Brilho das Coisas, de Helena Solberg, outro longa concorrente, também ligado à discussão de uma temática feminina. O quinto em competição nacional é Procuradas, de Zeca Pires e José Frazão, espécie de falso documentário que também discute a condição da mulher, por meio de prostitutas que desaparecem durante passeio de barco com dois clientes executivos. A competição de documentários também é marcada pela diversidade. Cárcere, de Liliana Sulzbach, mostra a vida das presas do Instituto Madre Pelletier, em Porto Alegre. Soldado de Deus, de Sérgio Sanz, documenta o integralismo de Plínio Salgado para discutir a ideologia de direita no Brasil. Tempo de Resistência, de André Sturm, liga-se a Conspiração do Silêncio ao evocar a luta armada contra o regime militar. Mensageiras da Luz, de Evaldo Mocarzel, é um documentário sobre parteiras da Amazônia. E Sobreviventes, de Paulo Fontenelle, conta histórias de descendentes dos que lutaram e morreram na Guerra de Canudos. Apenas dois longas latinos integram a seleção, Vereda Tropical, de Javier Torre, que se inspira no exílio do escritor argentino Manuel Puig no Brasil, e Suite Habana, de Fernando Pérez, que precinde de diálogos para contar, só com som e imagem, as vidas de dez habitantes da capital cubana. De hoje a sexta-feira, Gramado vai mostrar também 24 curtas e um média que integram a competição desses formatos. E haverá extensa programação paralela, com debates, oficinas e sessões de autógrafos. Isso tudo já está oficializado. A delicada questão da Ancinav, Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual, com certeza, vai provocar novos encontros e discussões que serão definidos no calor da hora, durante o festival.

Agencia Estado,

16 de agosto de 2004 | 18h04

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