Dito Montiel relembra sua juventude em 'Santos e Demônios'

Filme tem foco no cotidiano dos jovens do Queens sem deixar de lado a questão da identidade paterna

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo,

07 de dezembro de 2020 | 15h17

Santos e Demônios, assim como Um Amor Jovem são romances adaptados para o cinema por seus próprios autores. Em Santos e Demônios (A Guide to Reconizing your Saints), a figura em questão é o músico e escritor Dito Montiel, que aparece com seu próprio nome como protagonista do filme em que estréia como diretor.  Veja também:Trailer de 'Santos e Demônios'   A idéia é reviver, em retrospecto, o que foi a sua juventude no Queens, durante os anos 80. Dito a recorda, em flashback, enquanto volta da Califórnia para Nova York atendendo ao chamado da mãe, porque o pai está doente e não quer se tratar num hospital. O Dito Montiel adulto é um artista. Ele se recorda do Dito Montiel que não tem nada de seu, a não ser o sonho de ser alguém na vida. Esse ir e vir no tempo, se não chega a ser novidade, dá impulso à narrativa. Tem charme. No mais, o filme é um retrato de feitio bastante realista do cotidiano dos jovens nas ruas do Queens. O quadro é bastante áspero e se expressa na linguagem desbocada e agressiva de rapazes e moças e no conflito entre turmas rivais com conseqüências talvez trágicas. E mesmo no cotidiano familiar, acontece um inquietante diálogo de surdos entre gerações, situação que tem sua parte de responsabilidade em tamanho mal-estar. Que, claro, tem outro tipo de ingrediente além das desavenças internas de uma família de imigrantes com pouco dinheiro no bolso. O retrato é de uma ausência de perspectivas muito marcante, e o desejo, de Dito e de outro amigo, é obsessivo e sempre o mesmo - partir, ir embora, fazer carreira lá onde dizem que a vida é mais doce, mais ensolarada e interessante, na Califórnia. O filme tem esse foco na juventude desajustada, mas também na questão da identidade paterna. Montiel (Shia LaBeouf, jovem, e Roberto Downey Jr., adulto) se desentende com o pai, vivido pelo carismático Chazz Palminteri. Não é que Dito e o pai vivam em conflito aberto e permanente. Nada disso. Nem que a família (a mãe, Flori, interpretada por Dianne Wiest) seja um daqueles modelos disfuncionais de arrepiar os cabelos. Apenas que, por algum motivo, o diálogo não rola entre eles. E nem pode rolar mesmo, porque são gerações diferentes, expectativas desiguais, mundos incompatíveis, embora todos eles habitem no mesmo local sem graça e estejam juntos naquele verão tórrido, insuportável, propício ao transbordamento do sexo e da violência. Imersos na vida insatisfatória, só o que dá alento a alguns rapazes será a via de escape, o caminho rumo ao sonho. Eles são um pouco como aqueles meninões de Fellini em Os Boas Vidas, mas sem o mesmo humor do mestre italiano. Como estes queriam escapar de uma Rimini sem perspectivas para uma Roma cheia de novos horizontes, os rapazes do Queens, dois em especial, buscam a saída vital pelo caminho de Los Angeles. Em Os Boas Vidas, apenas um de todo o grupo consegue tomar o trem e escapar. Em Santos e Demônios também será apenas um, Dito Montiel, que toma seu lugar no ônibus e põe o pé na estrada. O rapaz afortunado de Os Boas Vidas é o próprio Fellini, que deixa Rimini, mas precisará acertar contas com sua origem pelo resto da vida - toda a sua obra não é senão esse acerto de contas. Da mesma forma, Montiel, nesse livro agora transformado em filme, expressa esse débito em conta de todo aquele que veio de um meio desfavorável e venceu. Precisa voltar, encarar fantasmas do passado e enfrentar a passagem do tempo. Tempo que transforma o pai num homem frágil, tempo que faz da adolescente por quem ele se apaixonou no passado uma mulher feita, mãe de família e também ela cheia de determinação. Tudo isso poderia ser apenas catarse, e então não teríamos nada a ver com o assunto. Mas como é também um interessante exercício cinematográfico (em especial para um iniciante), torna-se universal e comunica-se conosco e nos emociona.

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