Diretores fazem parábola da indiferença

Ainda bem que João Jardim e WalterCarvalho resistiram às pressões de amigos e possíveisinvestidores, que achavam que um filme como Janela da Alma,sobre a dificuldade de visão ou a visão imperfeita, seriadifícil e até impossível de fazer. Janela da Alma é a provade que não há tema que não se possa tratar com inteligência esensibilidade. É poético, emocionante e, principalmente,estimulante. Na era da imagem, na qual ver é fundamental, vocêvai sair do cinema perguntando-se, afinal de contas, qual é apior cegueira?Para José Saramago, que venceu o Nobel de Literatura, éa indiferença que, neste mundo globalizado, impede as pessoas (eas nações) ricas de verem o sofrimento dos pobres e dosexcluídos. Saramago pode ser um escritor difícil, às vezesilegível, mas seu Ensaio sobre a Cegueira, no qual teceu umaparábola sobre a indiferença, investigando a vocação do homempara o mal, foi uma das balizas de Jardim e Carvalho narealização desse filme admirável. Seu depoimento é denso,produto da reflexão de um humanista.Jardim e Carvalho filmaram muito. Transcreveram todos osdepoimentos e, com base nos textos, montaram o que deveria ser oroteiro de Janela da Alma. Não deu certo. O documentário éaquele filme que você faz e não sabe o que vai levar para casa,segundo a definição de João Moreira Salles. O roteirointeressante no papel revelou-se inviável quando o filme foimontado. A dupla de diretores partiu então para um vôo maispoético, mais emocional, sem perder a perspectiva crítica.A visão imperfeita, a dificuldade de visão está semprepresente. Mas a discussão procura ir sempre além doscondicionamentos resultantes da deficiência visual. A animadorafinlandesa Marjut Rimminen fala sobre o preconceito da mãe, queachava que ela seria uma incapaz. É uma grande artista, mas seudepoimento permite a Jardim e Carvalho tocarem num tema queconsideram dos mais importantes: o olhar do outro sobre o cego.Sempre o outro, dando razão a Jean-Paul Sartre, quando dizia queo inferno são os outros. Wim Wenders também dá um depoimentomuito interessante. Diz que precisa dos óculos para enquadrar omundo. Sem o limite da armação dos óculos, acha que vê demais.Por mais que o título venha de Leonardo Da Vinci, queconsiderava o olho a janela da alma, Santo Agostinho foi maisimportante no estabelecimento de um conceito para o projeto. Eledizia que a visão é o mais espiritual dos sentidos. Muitosdepoimentos apontam nessa direção. Oliver Sacks fala sobre adificuldade e até a impossibilidade de se ter uma visão objetivadas coisas e pessoas. Termina usando a visão para falar sobre aimaginação. Agnès Varda dá um depoimento particularmenterevelador. Mulher de Jacques Démy, ela conta que filmou o maridodurante a filmagem de Duas Garotas Românticas e, depois,quando ele estava morrendo.Em Duas Garotas Românticas, Démy coloca um pulôver,observado por Catherine Deneuve. Por mais bela que sejaCatherine, Agnès faz com que o olho do espectador fique preso emDémy. E, quando ele está à beira da morte, filma sua pele de umjeito como só uma mulher apaixonada poderia fazer. É um filmeraro, esse de João Jardim e Walter Carvalho. Embutida nele estáa tese de Saramago. O homem moderno está cego pela razão. Parasalvar-nos da indiferença, só uma revolução do afeto, queSaramago chama de revolução da bondade e, para João Jardim,poderia chamar-se também da tolerância.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.