Divulgação
Divulgação

Diretores de ‘Intocáveis’ trazem ‘Samba’ ao festival de cinema francês

Dupla do mega sucesso fala do novo filme e da situação dos imigrantes; evento destaca também o cult 'O Homem do Rio'

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2015 | 18h00

É uma vista deslumbrante. Da piscina do hotel, e das mesas espalhadas ao redor, descortina-se a praia de Copacabana, que já foi cantada em prosa e verso para todo o mundo. Éric Toledano e Olivier Nakache assinalam a beleza, mas não vieram ao Brasil para ficar olhando as praias. Na quarta-feira, 10, eles chegaram de Paris e, em São Paulo, participaram da coletiva de lançamento do Festival Varilux do Cinema Francês. À noite, ocorreu a exibição do filme de abertura e, à tarde, nas poucas horas livres, correram a uma favela na Vila Prudente, onde um amigo da dupla realiza um trabalho criativo com crianças. Toledano e Nakache vieram mostrar o novo longa, Samba.

Não é muita petulância mostrar no Brasil um filme com esse título? O filme tem um personagem que se apresenta como brasileiro, tem música brasileira. Jorge Ben Jor e Gilberto Gil. “Mas o samba, de verdade, é outro”, explica Toledano. O parceiro Nakache complementa: “Depois de Intocáveis, decidimos que nosso próximo filme seria sobre imigração. Calhou de estarmos em Nova York, comentamos isso e a pessoa com quem falávamos nos remeteu ao livro de Delphine Coulin, Samba pour la France (que acaba de sair no Brasil como Samba). O filme não é uma adaptação fiel do livro sobre o imigrante africano Samba Cissé. Seu amigo nem é brasileiro. Nossa fidelidade foi à pesquisa que Delphine fez sobre os ilegais. Nos poupou trabalho, mas, para o que queríamos fazer, tivemos de acrescentar coisas”.

E como acrescentaram! O espectador que assistir ao filme verá que a vida do ilegal Omar Sy toma outro rumo quando ele conhece a personagem de Charlotte Gainsbourg, Alice. E isso é totalmente coisa da dupla Toledano/Nakache. “A personagem não existe no livro”, explica Toledano. O filme vira (quase) um argumento original, porque a ligação entre Sy e Charlotte vai fornecer algo mais que um eixo estrutural. A história de amor improvável/difícil entre os dois, permeada de mal-entendidos, vai permitir que ambos reestruturem suas vidas.

É um bom, belo filme. Na sessão realizada quinta-feira no Cine Odeon, em plena Cinelândia, a plateia riu, aplaudiu em cena aberta. No mundo todo, Samba não repetiu o êxito de Intocáveis, que fez, na França, estratosféricos 20 milhões de espectadores. Mas não foi um fiasco – 3,5 milhões de espectadores podem não configurar outro fenômeno, mas são bem respeitáveis. No Brasil, onde Intocáveis fez 1 milhão, o componente ‘brasileiro’ da história talvez seja um chamariz.

“Estamos muito curiosos para ver como o público daqui vai reagir.” O repórter conta que, na letra de um samba famoso (de Noel Rosa) o samba é uma forma de oração. Toledano acha interessante, mas o samba, no filme, não é oração – é metáfora. “Nossos ilegais, como ocorre na vida, vivem fugindo da polícia. O samba, na verdade, é esse movimento permanente de dançar conforme o ritmo e escapar quando o cerco se forma.”Intocáveis era uma comédia com um tanto de drama. Samba é um drama com muito de comédia – em especial nas cenas de Omar Sy com Tahar Rahim, o Profeta de Jacques Audiard, que faz ‘o brasileiro’. A dupla defende a comédia como gênero – e suporte para se abordar temas sérios, como a imigração e a integração dos imigrantes.

Houve muita pressão para repetir Intocáveis? “O filme anterior foi um fenômeno universal. Podemos até sonhar que isso se repita um dia, de novo, mas vai ser difícil, senão impossível. Dois fenômenos? O importante é que 20 milhões de espectadores nos valeram nossa liberdade (para criar). E, mesmo assim, 3,5 (milhões) não está mal, não?, provoca Nakache. Os dois assistiram à peça Intocáveis em São Paulo. “Só isso prova a universalidade do filme, que pôde ser adaptado para outra mídia, em outro lugar. Quem dera que Samba também fosse.”

Festival exibe o longa que abriu Cannes, a Madame Bovary de Anne Fontaine e o cult ‘O Homem do Rio’

Embora a programação de 16 títulos seja a mesma nas 92 cidades brasileiras que exibem o Festival Varilux, o Rio termina sendo privilegiado. Por ter patrocínio do Governo do Rio e da Lei de Incentivo à Cultura do Estado, o Rio abriga os artistas que integram a delegação vinda da França e eles terminam debatendo com o público após as sessões. Anne Fontaine, que assina Gemma Bovery – uma reinterpretação da Madame Bovery de Gustave Flaubert –, ministrou na sexta-feira uma concorrida masterclass na UFRJ, na Urca. Falou sobre a realidade econômica e de fontes de financiamento na França. No ano passado, houve paridade e a produção nacional e os filmes norte-americanos totalizaram 90% do mercado, cerca de 45% cada. Os restantes 10% sobraram para os filmes de todo o mundo.

Anne falou também de seu cinema ‘tordu’, marcado pela ambiguidade sexual, que trata de forma sofisticada. Poderia ser uma autora para minorias, mas seus filmes vendem bem na França e têm feito carreira no exterior – nos EUA, no Japão.

Em São Paulo, capital, oito salas exibem a programação – veja a relação no Divirta-se, do Estado. Samba, da dupla Éric Toledano/Olivier Nakache, tem condições de satisfazer o público que gostou de Intocáveis, longa anterior de ambos. O ator é o mesmo, Omar Sy, que também está em Jurassic World. Omar tem ótimas cenas com Tahar Rahim, que faz um brasileiro em Samba.

Emmanuelle Bercot disse ao repórter que não aguenta mais falar sobre a ‘honra’ de haver inaugurado o Festival de Cannes deste ano com De Cabeça Erguida “Falam como se o filme estivesse lá como uma concessão por eu ser mulher. A qualidade fica em segundo plano”, reclama. Justamente essa qualidade você também poderá conferir neste domingo. E, claro, se até Steven Spielberg bebeu na fonte de O Homem do Rio para criar Indiana Jones, é bom dedicar atenção ao longa de Philippe De Broca com Jean-Paul Belmondo.

SERVIÇO:

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS. ‘De Cabeça Erguida’. Domingo (14), às 17h25. Caixa Belas Artes. R. da Consolação, 2.423, tel. 2894-5781. R$ 22. ‘O Homem do Rio’. 3ª (16), às 21h25. Cine Livraria Cultura. Av. Paulista, 2.073, tel. 3285-3696. R$ 20.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.