Netflix/Divulgação
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Diretores de documentário querem levar moradores de rua ao Oscar

'Espero que no dia da cerimônia possamos mostrar um pouco dessa convivência e conscientizar sobre essa humanidade que está ali, literalmente do outro lado da rua', disse o brasileiro Pedro Kos

Andrew Marszal, AFP

27 de fevereiro de 2022 | 12h17

Uma noite por ano, Hollywood recebe todo o glamour do Oscar, mas sua Calçada da Fama é onde diariamente pessoas em situação de rua vão dormir.

Esses mundos totalmente contrastantes se encontrarão no próximo mês graças ao desejo dos diretores de um documentário sobre a crise dos sem-teto, indicado ao prêmio, de convidar seus personagens para o tapete vermelho.

“Espero que no dia da cerimônia possamos mostrar um pouco dessa convivência e conscientizar sobre essa humanidade que está ali, literalmente do outro lado da rua, e que ignoramos há muito tempo”, disse o brasileiro Pedro Kos, codiretor do curta-metragem Onde Eu Moro.

"Esperamos poder levar dois ou três deles conosco", acrescentou seu parceiro na direção do filme, o americano Jon Shenk, em entrevista à AFP.

O documentário, disponível na Netflix, segue durante três anos várias pessoas desabrigadas e em situação de vulnerabilidade em Los Angeles, São Francisco e Seattle.

Mostra de forma íntima suas rotinas e suas dificuldades nas ruas, assim como suas esperanças de sair delas.

Entre as pessoas que acompanham está Luis Rivera Miranda, um homem de meia-idade que tem um cachorro e que começa um romance com uma mulher também sem-teto; e Ronnie "Astaire do futuro" Willis, que dança na Hollywood Boulevard na frente de turistas como seu ganha-pão. 

"Ele tem uma história extraordinária: alguém com formação clássica em dança que dançou com Janet Jackson, coreografou o sucesso 'Thong Song'”, de Sisqo, e "viveu tempos muito difíceis, infelizmente, por várias razões", explicou Kos. 

Segundo os cineastas, parte do problema é que muita gente vê as pessoas vivendo nas ruas de forma desumanizada e se convence de que elas são os responsáveis por sua tragédia.

Ao abordar as causas que as empurraram para as ruas, o filme elenca vários fatores, como deficiências, rejeição de suas famílias por serem trans e depressão.

"Esperamos que o documentário possa fornecer uma nova perspectiva, que dê um rosto ao que está acontecendo", continuou Shenk. "Eles são americanos, são nossos vizinhos, têm direitos, são pessoas."

Os diretores abraçaram seus personagens e ganharam sua confiança trabalhando com organizações de apoio aos moradores de rua.

Em vez de entrevistá-los diretamente, Shenk colocou sua câmera em abrigos onde pessoas desabrigadas participaram de entrevistas de "análise de vulnerabilidade", e saiu da sala para permitir que discutissem mais livremente sua situação.

Shenk e Kos não propõem uma solução para esse problema, o que cabe às autoridades dos municípios, mas acreditam que simplificar a enorme burocracia dos programas sociais disponíveis para os sem-teto poderia ser um começo.

O documentário aponta que a política de não despejo adotada durante a pandemia da covid-19 irá expirar em breve, possivelmente agravando ainda mais a crise.

"Não temos dúvidas de que estamos passando por uma gigantesca crise humanitária nos Estados Unidos", ressaltou Shenk.

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