A Contracorriente Films
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Diretora Isabel Coixet fala sobre 'A Livraria', que chega aos cinemas

Longa faturou o Goya, o chamado Oscar espanhol

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 18h47

Isabel Coixet conversa com o repórter pelo telefone. Seu novo filme - A Livraria - estreia, nesta quinta, 22, nos cinemas brasileiros. Ela ri, gostosamente, do outro lado da linha. O repórter acaba de lhe fazer sua interpretação sobre o filme. É sobre uma mulher que funda uma livraria numa pequena cidade, sem ter pedido permissão para a poderosa local. Essa, só para mostrar quem manda, vai fazer de tudo para prejudicar, e até destruir, a iniciativa. A Livraria é sobre livros, claro, mas é sobretudo um espelho para refletir sobre o estado do mundo.

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Ela concorda - “Sou, por princípio, uma pessoa decidida, lutadora. Mas você tem razão, se entendo sua observação - o mundo piorou muito. Toda essa conversa sobre democratismo, meritocracia. Veja o que ocorre na Espanha, nos EUA, presumo que no Brasil também, embora não seja nenhuma especialista sobre seu país. Em toda parte, é essa obsessão por mandar, dominar. Creio que foi isso que me atraiu no livro de Penelope Fitzgerald. Imediatamente percebi que havia ali alguma coisa que poderia trabalhar como fábula, talvez. O significado oculto das palavras, das imagens. Estamos falando de livraria numa outra mídia, o cinema. E a ideia é que, no mundo cruel, com livros e filmes, nunca estamos sozinhos. Pode parecer tolo, mas enquanto eu trabalhava para que personagens como os de Patricia Clarkson e James Lance destilassem todo o seu veneno, o que eu queria, o que o filme pedia, é um olhar compassivo. Plantar uma semente, e essa só pode ser a menina.”

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A Livraria ganhou o Goya, o Oscar espanhol, nas categorias de melhor filme, direção e roteiro. É falado em inglês, por um elenco excepcional. Bill Nighy, Emily Mortimer. Interpretam o velho sr. Brundish e Florence, que funda a livraria. Como é para uma diretora catalã filmar em inglês? “Pois para mim não faz diferença. Devo viver num mundo à parte, o país do cinema, mas essas questões de nacionalidade muitas vezes me exasperam. Sou catalã e, agora mesmo, estamos numa disputa feroz. Não milito pela independência, acho que é possível ser catalã e espanhola, mas é absurdo que, nas escolas da Catalunha, as crianças sejam punidas se não falam espanhol. Graças às novas ferramentas, o mundo ficou menor, estamos todos integrados. Ao mesmo tempo, há uma banalização do sofrimento, porque nada mais nos atinge. Sinto que nos fechamos em nós mesmos, nos nossos casulos.”

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A banalidade do sofrimento - e Isabel Coixet observa. “James (Lance) cria um personagem asqueroso. Não ama ninguém, serve incondicionalmente a Violet (Patricia Clarkson) e quando Emily lhe pergunta por que, ele não tem resposta. Ora, por quê? O filme é sobre a banalidade do mal, e nesse estado da vida e do mundo, como você diz, é também sobre os perigos de sermos ingênuos e bonzinhos.” A pergunta que não quer calar - embora não sejam muitos, há um certo número de filmes sobre livrarias. Algum influenciou Isabel? Ela ri, de novo. “Imagino que você deva estar pensando em Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (de David Jones, 1987, com Anne Bancroft e Anthony Hopkins). Foi um filme que me marcou. Dois personagens divididos por um oceano e ele, como editor, a supre com os livros que ela necessita. Amam-se de uma maneira muito casta, exatamente como Florence e o recluso sr. Brundish.”

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Talvez um filme como A Livraria pareça anacrônico. Muita coisa ocorre em torno ao cerimonioso chá das 5 - a história é ambientada na Inglaterra - e numa das mais belas cenas Florence e o sr. Brundish ficam a ponto de se pegar. Beijo! Beijo!, o espectador pede. É uma dessas cenas que só são possíveis no cinema com grandes, imensos atores. Bill Nighy segura a tensão. “Bill é um dos maiores atores do mundo. Preparei-me para fazer esse filme, que é de época, um outro mundo, mas o que me salvou foi o elenco. Atores como Bill, Emily (Mortimer).” A pergunta que não quer calar (2) - o empoderamento feminino? “Tenho estado batalhando toda a minha vida. Nunca foi fácil. Hoje as mulheres têm mais consciência da sua força, da sua voz. Não sei até que ponto facilita - sempre vamos ser cobradas, mas eu gostaria de não ser cobrada como gênero. Um homem não é cobrado por ser homem, uma mulher, sim.” Isabel trabalha no próximo filme. Duas mulheres em 1901. Elas desafiam o mundo unindo-se, casando-se. “É uma história linda. Espero contá-la como tem de ser.”

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