Julian Dabien.
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Diretora de ‘Sueño Florianópolis’, argentina Ana Katz fala sobre feminismo

“No imaginário de todo o mundo, o Brasil, com praias, carnaval, parece sempre um sonho de liberdade – liberdade do corpo, de ser, de ousar", diz Ana

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2018 | 06h00

Havia uma forte representação argentina no Festival de San Sebastián, em setembro – nada menos de 12 filmes. Quatro eram interpretados por Mercedes Morán – El Angel/O Anjo, que representará a Argentina no Oscar, disputando a vaga de finalista com O Grande Circo Místico (Brasil) e Em Chamas (Coreia do Sul), para citar dois possíveis candidatos em cartaz nos cinemas brasileiros; Um Amor Inesperado; Família Sumergida; e Sueño Florianópolis. Pesquisando nas redes sociais, você encontrará muitas fotos de Mercedes e Ricardo Darín, com quem ela divide a cena em Un Amor Menos Logrado, de Juan Vera, e o diretor esteve no Festival do Rio. Também esteve Ana Katz, diretora e corroteirista (com o irmão Daniel) de Sueño Florianópolis, que estreou na quinta, 15.

Uma família argentina aluga uma casa e vem de carro passar as férias de verão em Santa Catarina. Conhecem múltiplos percalços no caminho – o carro enguiça, a casa revela-se um lixo. Felizmente, há outro casal – de brasileiros – para ajudar. A ‘pareja’ do Prata é constituída por marido e mulher psicanalistas. Estão em crise. Rola, muito discretamente, um suingue. Mercedes Morán e Gustavo Garzón formam o casal argentino, Andréa Beltrão e Marco Ricca, o brasileiro. E tem os ‘chicos’, um casal de irmãos argentinos, e ela se envolve com o filho dos brasileiros.

“Havia visto Marco (Ricca) no filme de Lina Chamie, A Via Láctea. Era um ator com quem tinha ‘ganas’ de trabalhar. Andréa (Beltrão) foi uma indicação. É estupenda, uma atriz muito boa para dizer o texto e melhor ainda nos silêncios, que são sempre tão importantes no cinema. O casal argentino foi mais fácil. Mercedes (Morán) se impôs rapidamente. Quando terminamos o roteiro, meu irmão e eu pensamos – quem poderia ser a protagonista argentina? E concluímos – ‘Mercedes!’ Quanto a Gustavo (Garzón), para o marido, pode ser pouco conhecido no Brasil, mas na Argentina é muito respeitado.”

Como atriz, Ana Katz já filmou na França e na Espanha. “Foram cinco viagens ao Brasil para escolher locações, elenco. Senti-me sempre bem acolhida. Por mais que estejamos falando sobre diferenças culturais, é um filme sobre afetos. Senti uma entrega muito grande da equipe brasileira.” Ana já havia trabalhado com Mercedes Morán em seu terceiro longa, Os Marcianos, de 2011. “Mercedes é umas atriz muito física, tem aquele brilho no olho. E é cinéfila, tem sempre ótimas ideias que acrescentam à personagem e ao filme.” Sueño Florianópolis nasceu de um argumento e depois roteiro baseados nas experiências de Ana e do irmão.

“Na nossa infância, vínhamos muito ao Brasil com a família. Era um movimento muito intenso. Nos anos 1990, o câmbio era favorável e as famílias vinham de carro, quase 2 mil km, para realizar o sonho do verão em Florianópolis. Olhando, agora, retrospectivamente, era algo que os dois lados esperavam. O Brasil esperava esse turismo e, para os argentinos, era uma espécie de negação do desastre econômico que se anunciava. De certa forma, ao falar sobre esse passado, sinto que continuo falando sobre o presente. Nossa situação econômica é muito complicada, a de vocês não é muito confortável. Muita coisa que está sendo prometida aqui, com a mudança de governo, já não deu certo lá. ‘Hay’ que ser otimista. Se o assunto não é futebol, com a nossa rivalidade doentia, creio que pode haver diálogo para tudo.”

Existem temas que percorrem Sueño Florianópolis, e um deles é a liberdade. “No imaginário de todo o mundo, o Brasil, com praias, carnaval, parece sempre um sonho de liberdade – liberdade do corpo, de ser, de ousar.” E o outro é, pode-se arriscar, o feminismo. “Estamos falando de classe média, mas queríamos, Daniel e eu, registrar o momento em que essas mulheres se libertam e não têm medo de se perder. As personagens de Mercedes, de Andréa, fazem coisas que talvez sejam novas para elas. Para Mercedes, sim. Para Andréa, talvez. E, no final, elas têm um entendimento. É isso que me interessa, mesmo que as coisas não sejam ditas com toda clareza.”

Essa mudança do comportamento feminino tem estado em evidência no cinema de Ana Katz. “Fiz um filme, Minha Amiga do Parque, baseado em outra experiência minha. Quando tive minha primeira filha, ia muito ao parque com ela. E comecei a perceber uma coisa interessante. Muitas mulheres, algumas não eram as mães, eram cuidadoras, mas estavam ali com crianças. E os velhos. Comecei a sentir um movimento de... Solidariedade? É isso. Independentemente da origem ou condição social, havia naquele momento uma espécie de comunhão das mulheres. Quando fui estudar cinema, éramos poucas. Hoje, existem muitas garotas nos cursos. Os filmes têm de dar conta dessas mudanças. Tentar, pelo menos. Eu tento.”

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