Taylor Jewell/Invision/AP, File
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Diretora chinesa de 'Nomadland' enfrenta controvérsias em seu país

O sucesso da cineasta Chloe Zhao nascida em Pequim, e agora uma importante candidata ao Oscar, foi ofuscado por uma reação nacionalista no tocante à sua cidadania e sua identidade

Huizhong Wu, Associated Press

09 de março de 2021 | 20h00

TAIPEI, TAIWAN - O sucesso de Chloe Zhao, a primeira mulher asiática e a segunda a receber um Globo de Ouro de melhor direção por seu filme Nomadland – não foi recebido com aplausos em seu país de origem.

O sucesso da cineasta nascida em Pequim, e agora uma importante candidata ao Oscar, foi ofuscado por uma reação nacionalista no tocante à sua cidadania e sua identidade. Os censores removeram postagens sobre o filme que apareceram nas redes sociais, levantando dúvidas quanto a se o filme será visto na China.

Na semana passada, usuários de internet chineses questionaram se Zhao, que estudou no Reino Unido e nos Estados Unidos, ainda é uma cidadã chinesa e se deve ser reconhecida como chinesa diante dos comentários críticos que fez em 2013 sobre seu país. Mesmo que alguns tenham comemorado sua vitória, outros desenterraram duas entrevistas concedidas por ela em que disse coisas consideradas “um insulto à China''. Agora a publicidade do filme foi removida da mídia social e pelo menos duas hashtags relacionadas a ele foram desativadas. A busca pelos hashtags #Nomadlandtemumadatadelançamento e #Nenhumaterraparaconfiar (título do filme na China) na plataforma Weibo, resultou na seguinte mensagem: “De acordo com leis, regulamentos e políticas relevantes, a página não foi encontrada”.



Uma postagem no Weibo da National Arthouse Alliance of Cinemas, financiada pelo governo, que havia divulgado um pôster para o filme, retirou o cartaz. No popular aplicativo Douban, onde muitos usuários discutem livros, filmes e programas de TV, o cartaz do filme e também a data de lançamento foram deletados na sexta-feira. Mas a página do filme no aplicativo, com comentários e o cartaz em inglês continuam visíveis.

No centro da controvérsia, estão dois trechos de entrevistas concedidas anteriormente por Chloe. Os usuários online fizeram circular imagens de uma entrevista que ela deu para a revista Filmmaker, em que afirmou que “lembro quando era adolescente na China, vivendo num lugar onde há mentiras por toda parte”. A entrevista não mais exibe essa citação, mas versões arquivadas da página na Web mostravam o original.

A segunda citação foi de uma entrevista que ela deu para o website australiano news.com.au em dezembro do ano passado, quando teria afirmado que “os Estados Unidos hoje são o seu país”. Embora o site de notícias tenha atualizado a matéria em três de março, afirmando que a frase correta era (Os Estados Unidos) “não” são o meu país, foi a versão incorreta da história que circulou amplamente na internet chinesa.

Há dúvidas se o filme será lançado na China. Sua data de estreia estava marcada para 23 de abril, de acordo com a mídia chinesa.

 


O debate online está dividido em dois campos. Os nacionalistas dizem que Zhao traiu seu país, e a chamam de “duas caras”, dizendo que ela deixou o país respaldada pela riqueza do pai, que foi CEO de uma empresa estatal. Outros afirmam que a discussão deve se centralizar no filme, que relata a história de uma mulher que vive em uma van depois de a empresa que era o motor econômico da sua cidade ser fechada.

Um conhecido crítico de cinema na China, Chu Mufeng, elogiou Chloe e o filme no Weibo, onde tem três milhões de seguidores, observando que “não só ela é a primeira mulher chinesa a conquistar o prêmio de melhor diretora, mas também a primeira mulher asiática”.

Mas um seguidor, comentando sua postagem, afirmou que “uma diretora de cinema americana, obrigado, não a elogie demais”. Chu respondeu, afirmando: “se um chefe de etnia chinesa é excelente na cozinha você perguntaria de onde ele veio? Trate um filme bom como se fosse um banquete, tudo o que você precisa é desfrutar”.


Tradução de Terezinha Martino

 

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