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Diretor Rodrigo Piá nos coloca diante da fera de mil cabeças em novo filme

Mexicano mostra em termos dramáticos o desamparo de clientes diante de planos de saúde inescrupulosos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2016 | 04h00

Todo mundo é contra a violência e ninguém gosta de ser explorado. Nessas condições é que se estabelece a história de O Monstro de Mil Cabeças, dirigido pelo mexicano Rodrigo Plá. Já pintou filme dele por aqui. Em A Zona, ele mostra o que acontece num condomínio de luxo projetado para se isolar seus moradores o máximo possível da sociedade e suas impurezas.

Plá é observador das disfunções sociais contemporâneas. E, se lhe parece bizarro que um grupo de moradores queira criar um paraíso artificial cercado de muros, também lhe soa estranho o método de assistência à saúde vigente em alguns países, Brasil inclusive. Ora, todos sabemos de histórias, mesmo quando não somos os protagonistas, de gente que pagou durante vários anos um plano de saúde e, quando precisou usá-lo, viu a seguradora negar-lhe assistência. É, como sabe qualquer um que já tenha passado pela experiência, algo de uma crueldade sem par. No momento em que as pessoas se sentem mais frágeis, quando a saúde lhes falta, ou a um ente querido, veem-se forçadas a tomar as atitudes mais assertivas para terem seus direitos respeitados.

É o que acontece quando Sonia (Jana Raluy) vê seu plano de saúde recusar tratamento ao marido, que padece de câncer. Ela tenta de tudo, e percorre a burocracia imposta nesse tipo de caso. Exames, atestados, horas marcadas com médicos que não aparecem, etc. Todo mundo também sabe do que se trata. Até que perde a paciência e... Bem, os espectadores verão por sua conta o que Sonia decide fazer.

Plá filma muito bem, à maneira de documentarista, com urgência jornalística e senso de ritmo. Com sua câmera ágil, penetra esse universo kafkiano em que determinadas empresas enredam seus clientes. A esses, cabe esperar, atender a cada exigência de um novo documento, enquanto o tempo decorre e providencia ele mesmo a solução de tudo, com a morte do reclamante. Quando um desses clientes resolve quebrar esse ritmo, o caos se instaura. Mas é um caos interessante, porque provém, por paradoxo, de uma tentativa, ainda que desesperada, de impor certo sentido àquilo que não o tem. O ato de Sonia equivale a rasgar uma cortina e vislumbrar o que ela esconde.

De maneira ágil, Plá alterna pontos de vista e tempos diferentes. Como a dizer que, apesar do nítido ponto de vista do filme, convém saber também quais são os outros. Além disso, joga com a parte temporal – o presente, em que a ação se desenrola, e o futuro, no qual as consequências devem ser enfrentadas.

O Monstro de Mil Cabeças é um filme que leva a pensar, e só por isso já se torna recomendável. Não existem conclusões fáceis. Podemos ter empatia por Sonia e achar que no lugar dela faríamos o mesmo. Mas não é fácil. Quando alguém decide enfrentar o monstro, de cara limpa, está abrindo uma trilha em território desconhecido. Mas o pior é aquilo que filme aponta: no desespero, o Estado se omite e o cidadão encontra-se só, lutando contra gigantes e moinhos de vento. Essa solidão é o que existe de mais perturbador.

 

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