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Diretor recria na música de ‘Whiplash’ o embate de Kubrick em ‘Nascido para Matar’

Segundo filme do diretor Damien Chazelle estreia nesta quinta, 8

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 Janeiro 2015 | 03h00

Assim como os judeus inventaram Hollywood – tese de Neal Gabler em seu livro O Império do Cinema, sobre as origens da indústria –, eles também se apossaram do jazz, tornando-o mais competitivo e, num certo sentido, universitário. O talento espontâneo, como no futebol, tornou-se inviável no jazz contemporâneo. O gênio fabrica-se, como diz o protagonista de Whiplash, ao explicar que está acabando com a garota porque ela terminará por afastá-lo do caminho que traçou para seu futuro.

Whiplash é o segundo longa dirigido pelo roteirista Damien Chazelle. Aos 30 anos, que completa dia 19, o jovem de Providence/Rhode Island virou uma aposta segura para o próximo Oscar, cujos indicados serão anunciados na semana que vem (dia 15). A questão é – em quais categorias Whiplash poderá concorrer? Melhor filme, diretor, roteiro, montagem, trilha e ator. O certo seria indicar J.K. Simmons para o Oscar de melhor ator, mas a exemplo do Globo de Ouro é bem provável que ele concorra ao prêmio de coadjuvante, mesmo sendo protagonista, de igual para igual, com Miles Teller, que faz o garoto.

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O primeiro longa já era ambientado no jazz, Guy and Madaline. E houve um curta também chamado Whiplash. No longa reverberam ecos de filmes que marcaram o diretor – Brilhante, Cisne Negro e outros dois que foram decisivos, como você vai ver. Whiplash ganhou subtítulo, Em Busca da Perfeição. Narra o embate entre aspirante a baterista, que sonha ser gênio do jazz, e o regente da banda universitária em que faz seu aprendizado de arte e vida. Miles Teller é o jovem, chama-se Andrew. J.K. Simmons – na performance de sua vida –, o regente, Fletcher. É um monstro. Suga o sangue dos integrantes da banda, submete-os a provas físicas que são quase sempre brutais sessões de humilhação.

Você já viu esses personagens em outros filmes, em outros contextos. Em 1987, exatamente 30 anos depois de fazer com Glória Feita de Sangue um dos maiores filmes de guerra do cinema, Kubrick voltou ao gênero para refletir sobre o Vietnã em Nascido para Matar (Full Metal Jacket). Kubrickianamente, ele filmou nos arredores de Londres, recriando o Sudeste Asiático dentro de um hangar. O filme divide-se em duas partes. Na primeira, um sargento instrutor quebra seus recrutas até transformá-los em máquinas de matar. Na segunda, Matthew Modine, já como soldado, caça atirador que está matando seu pelotão, sem saber que é ela – uma atiradora.

O embate entre o recruta e o sargento ganha versão musical e jazzística. Modine e Lee Ermey viram Miles Teller e J.K. Simmons. Kubrick dizia que o cinema é montagem. É uma regra que Damien Chazelle segue a ponto de transformar os intermináveis ensaios em elaborados (e precisos) exercícios de corte e montagem. Bem antes, um ex-montador, Robert Wise, fez escola nos anos 1950 realizando dramas urbanos que embalava em música de jazz, filmando em preto e branco para captar o clima enfumaçado dos cabarés. Chazelle filma bem, monta bem – a busca da perfeição, mais que dos personagens, talvez seja dele. Ele viu seu Wise, mas Kubrick foi uma de suas referências. Só que há outra.

Em 1979, Peter Yates, grande diretor de filmes tão diversos entre si quanto Bullitt, John e Mary e Os Amigos de Eddie Coyle, fez O Vencedor/Breaking Away, contando a história de uma corrida de bicicletas em que os competidores são levados ao limite. Em Film Comment, Chris Norris, um escritor de Nova York, toma O Vencedor como a pedra de toque de Whiplash. Talvez não seja – é o Kubrick –, mas o clima de disputa e o desgaste físico contribuem para fazer de Whiplash um grande filme de jazz aeróbico. Fletcher/Simmons pressiona, Andrew/Teller quebra. Seu pai, um bom sujeito, mas escritor medíocre que se contentou em ser professor de literatura, vai tomar a defesa do filho. Há um quiproquó jurídico que vai destruir a carreira de Simmons, como o próprio Simmons destruiu a de Teller. Mas eles se reencontram, e agora para o definitivo acerto de contas.

Para Simmons, um solo de Charlie Parker, que o transformou em Bird, é o nirvana do jazz. Pela segunda vez ele vai tentar quebrar Teller, e quase consegue. Mais duro e cruel que Simmons é Chazelle. Quando está recuando, mais uma vez, Teller defronta-se com o pai e percebe que vale tudo para não ser como ele. Hollywood faz muitos filmes sobre família, muita baboseira, e não por que família não seja importante. Chazelle bate forte. A meia hora final de Whiplash toca a perfeição que o diretor persegue. Simmons confessa que, por mais que tenha tentado, nunca cruzou com um Charlie Parker em seu caminho. Teller observa, como pássaro (bird) ferido, que ele pode ter desencorajado muitos Charlie Parkers. Simmons retruca – ninguém pararia Charlie Parker. É um desfecho grandioso, magnífico. Encerra um filme que já nasceu clássico, e não apenas sobre jazz.

Jazz é 100% transpiração, eis a mensagem musical desse filme

Trilha contém apenas dois standards e mais a canção obscura do título, mas temas são apurados e perfeitamente adequados

Por Jotabê Medeiros

Bateristas de jazz raramente são os bandleaders. É possível contar nos dedos das mãos os que o foram: Art Blakey, Max Roach, Billy Cobham, Jimmy Cobb, Roy Haines, Gene Krupa. O que levou o diretor de Whiplash a escolher a difícil bateria (em vez do trompete, do sax ou do piano) como o elemento simbólico de seu conto da era do jazz?

É que o cineasta Damien Chazelle foi, ele mesmo, um postulante a jazzista, e a fisicalidade envolvida na bateria o fascinava. Se o espectador é daqueles que detestam os solos de bateria intermináveis de shows de jazz, não é o seu tipo de filme.

Whiplash, a música do saxofonista, compositor e regente Hank Levy (1927-2001) que dá título ao filme, é de certa forma a chave dessa obra. Não é um standard famoso, e é usualmente tocado em conservatórios como baliza educacional. Ela nunca é tocada em sua inteireza no filme, são apenas partes. Sua peculiaridade é conter “odd meters”, ou batidas simples e compostas que desafiam a pulsão e o controle do baterista.

Justin Hurwitz é o cérebro, o responsável pela trilha sonora original (free e atonal, em sua grande parte). Ele lança mão de raros standards, como Caravan, de Duke Ellington, e Intoit, de Stan Getz. Tim Simonec é o outro compositor – é dele o tema surpresa que vai se constituir, na cena final, na mais terrível prova para o jovem baterista.

“Não existem duas palavras mais danosas na língua inglesa do que ‘good job!’ (bom trabalho)”, diz o terrível professor Fletcher (J.K. Simmons), personagem central de Whiplash. Em sua lógica de Sargento Tainha da música, o elogio da performance mediana poderia fazer um músico medíocre ir longe demais. Um perigo.

Com engrenagem de competição esportiva, exalta o lado de potência e precisão do jazz – e fustiga o lado de emoção e “pieguice”. Personagens são monásticos, amor e família são vistos como “distração”. Em vez do desregramento da heroína e da vida no limiar da marginalidade, é o elogio da transpiração, da aplicação. 

Não é por acaso que o filme idolatra a filosofia do trompetista Wynton Marsalis: “Nada aconteceria se um músico da minha orquestra montasse uma banda de hip-hop. Eu estaria apenas perdendo um músico”. 

Essa é a opção do diretor. Ainda assim, talvez seja o mais importante filme sobre o gênero desde Bird, de Clint Eastwood. A escola do filme é certamente decalcada da estrelada Juilliard School, e as cenas de ensaios são luminosas, envolventes. Embora guardem um distanciamento olímpico uns dos outros, os músicos afinam suas personalidades nos ouvidos do espectador. 

QUEM SÃO

 Buddy Rich

O baterista que é considerado o Pelé do instrumento (embora branco) morreu em 1990, aos 73 anos, e seu estilo encontra ressonância seja no trabalho de Billy Martin (da banda Medeski, Martin & Wood) até o estilo de Jason Bonham (Led Zeppelin). No filme, é o personagem mais citado – em dado momento, o jovem Andrew põe um CD no aparelho de som, a gravação de Birdland de Buddy Rich (1961), para se inspirar. 

Jo Jones

Outro baterista fundamental citado – o professor Terence Fletcher adora contar a história de como Jones atirou um prato de bateria em Charlie Parker e de como isso teria ensinado o saxofonista a tocar direito. Jo Jones (1911-1985), cujo nome completo era Jonathan David Samuel Jones, tocou na orquestra de Count Basie e era conhecido pelo temperamento explosivo e o preciosismo técnico. Odiava desafinação.

Charlie Parker

Um dos mitos do jazz, Parker (1920-1955), chamado no filme muitas vezes pelo seu apelido, Bird, foi um dos heróis trágicos do gênero, protagonista de uma história de drogas, álcool e tentativas de suicídio. Gênio que ajudou a expandir as fronteiras do jazz em direção ao erudito e à música latina, ele é tido por muitos como o maior músico do gênero em todos os tempos.

Wynton Marsalis

Responsável por elevar o jazz praticamente à categoria de ciência, o trompetista e diretor do Jazz at Lincoln Center (instituição de ensino, formação e pesquisas musicais) é mencionado pelo professor Fletcher como regente capaz de catapultar a carreira de qualquer jazzista que tenha a sorte de ser escolhido por ele.

Louis Armstrong

Um dos originadores do jazz, o trompetista é lembrado pela excelência pelos personagens. Mas Armstrong era muito mais do que excelência. / J.M.

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