Diretor peruano é o grande destaque de Havana

A 22ª edição do Festival Internacional do Novo Cinema Latino-americano (é este o nome oficial do Festival de Havana) começou em grande estilo, como convém: com a presença de Fidel Castro em pessoa, show da cantante Omara Portuondo e apresentação do filme Nueces Para el Amor, do argentino Alberto Lecchi. Tudo isso no grande palco do Teatro Karl Marx, com seus 5 mil lugares lotados. Será lá também o encerramento, dia 15, com a atribuição dos prêmios aos vencedores. Até lá muita coisa vai rolar, mesmo porque o que caracteriza a mostra cubana é o seu gigantismo. Contam-se literalmente em centenas os filmes apresentados todo ano em Havana, entre competidores, retrospectivas, homenagens e panorâmicas. Além das várias mostras competitivas, há um vasto panorama do cinema latino-americano, painéis dos cinemas da Alemanha, Canadá, Espanha, França, Itália, e, bloqueio à parte, da fração independendente da produção norte-americana. Mais: o ator Vittorio Gasmann, que morreu este ano, está sendo homenageado em Cuba com uma retrospectiva que não ganhou em sua própria terra natal. E o peruano Francisco Lombardi, um dos mais regulares cineastas do continente, está tendo sua obra revisada, desde o pioneiro e ácido Caídos del Cielo, até o mais recente, Tinta Roja. Como se não bastasse, a organização do festival resolveu testar de vez o fôlego dos cinéfilos e promoveu uma mostra à parte, dedicada à presença judaica no cinema latino-americano. Quem se ocupa com os problemas, digamos, teóricos, do cinema, também não tem do que se queixar. Tradicionalmente, as delegações de cada país promovem entrevistas coletivas, em que falam das condições de produção, discutem estética e, em geral, se queixam das más condições de distribuição e exibição dos seus filmes. Neste ano, até mesmo a corporação dos críticos promoveu um encontro, debatendo o tema Cinema e Identidade, com resultados bem interessantes. O cineasta peruano Francisco Lombardi é definido como um dos "imprescindíveis" do cinema latino-americano. Não há dúvida de que o adjetivo está bem aplicado, ainda mais se levarmos em conta que Lombardi é um dos raros casos de diretor (no continente, mas, mais ainda em seu país) que apresenta uma produção regular. Continua fazendo seus longas-metragens em intervalos razoáveis, quando a regra, por aqui, são as interrupções de carreiras às vezes tidas como promissoras. Mas ele é regular também em termos de qualidade. Não se trata de um inovador em termos de linguagem. É um narrador competente, mas que coloca a sua arte a serviço de temas incômodos, urgentes, ou ambos. São os casos de filmes como Caídos del Cielo, La Ciudad y los Perros, La Boca del Lobo, Bajo la Piel, No se lo Digas a Nadie. Seja falando da miséria humana em Lima, do machismo e da alienação nos colégios militares, do povo espremido entre a guerrilha do Sendero Luminoso e o exército, usando um thriller policial como pretexto, ou simplesmente evocando o velho tema da hipocrisia em matéria de sexualidade, Lombardi está sempre comentando, evocando e criticando sua realidade mais próxima e as circunstâncias que levaram a ela. Isso não quer dizer que prefira viver insulado, culturalmente. Pelo contrário. O cineasta tem, nos últimos tempos, procurado temas de interesse mais universal, mesmo que o ponto de partida deles seja sempre a realidade peruana. Como falou à Agência Estado, tem conseguido isso, sobretudo com seu penúltimo trabalho, Pantaleão e as Visitadoras, que fez o maior público deste ano no Peru, levando 800 mil pessoas ao cinema. Pantaleão venceu o Festival de Cinema de Gramado e transformou-se num dos raros casos de filme latino-americano que irá ter distribuição comercial no Brasil.Na entrevista, Lombardi disse que o fato de ter co-produzido seus últimos filmes com a Espanha de certa forma influenciou seu formato final: "Tenho procurado temas mais universais, que possam ser apreciados por um número maior de pessoas, embora, repare, minhas histórias sempre se passem no Peru". O cineasta reconhece que, se não fosse por essa parceria, seu destino seria tornar-se um artista bissexto, como tantos na América Latina. "Sem a colaboração com os espanhóis eu não poderia manter a continuidade do trabalho", diz. Nem sempre Lombardi foi unanimidade de bilheteria em seu país. Bajo la Piel, por exemplo, um policial existencialista que toca as fundas raízes indígenas do país, foi "êxito de crítica, mas não de público". Felizmente, para ele, No se lo Digas a Nadie e, sobretudo, Pantaleão, caíram no gosto do público peruano. Este, em especial, com seu diálogo com o picaresco, erotismo soft e conteúdo subliminar de fundo antimilitarista, e além disso garantido pela grife Mario Vargas Llosa.Isso não quer dizer que Lombardi agora se dedique, com exclusividade, a temas "taquilleros", bons de bilheteria. "Meu novo filme, Tinta Roja, tem outro caráter; é crítico, fala de liberdade de imprensa, de idealismo e de cinismo, e apesar desses temas difíceis, está indo bem, dentro das suas limitações de seu pouco apelo popular".Lombardi sabe que é uma figura solitária em sua terra. "Dificilmente se pode falar em um cinema peruano, em um país que produz de um a três filmes por ano". Isso não faz uma cinematografia, diz, com toda a razão. Segundo ele, com esse volume de produção, não se cria uma massa crítica suficiente para que os filmes sejam comparados uns com os outros, se detectem tendências ou não. É preciso um volume mínimo de produção para que essas linhas sejam explicitadas e se possa falar de uma determinada cinematografia como entidade consolidada. Cá entre nós, nem mesmo no Brasil, com um volume de produção médio de 20 longas/ano essas linhas são visíveis, o que se dirá de países como Peru, Chile ou Bolívia. O cineasta no entanto é esperançoso, em especial nas facilidades de produção que se anunciam com as novas tecnologias. "À medida em que possamos trabalhar com câmeras mais leves e baratas talvez nos livremos da ditadura das grandes produções e dos laboratórios." Só não disse como resolver os problemas de comercialização dos filmes, este sim o verdadeiro nó górdio da produção da América Latina. Sobre seu novo projeto, mais uma vez co-produzido com os espanhóis, Lombardi diz apenas que tentará seguir a estrutura narrativa de Caídos del Cielo: várias histórias isoladas com personagens que acabam por interagir. Perguntado se, em termos de conteúdo, poderá ser tão radical quanto o primeiro filme, Lombardi diz que ainda não sabe. "Mas por que não?, é uma linha de trabalho, este o de abordar a realidade trágica dos nossos países com a chave do humor negro, que sempre me pareceu interessante".

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