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Diretor Paolo Sorrentino disputa o Oscar com seu filme mais maduro

Em ‘A Mão de Deus’, cineasta conta trauma de perder os pais na adolescência e faz tributo a sua cidade, Nápoles, e a Maradona

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

18 de março de 2022 | 05h00

Paolo Sorrentino só se encontrou uma vez com Diego Maradona, rapidamente, após uma partida de futebol. O jogador não era apenas um deus do futebol, ídolo do Napoli e da Seleção Argentina, como tinha ajudado a cidade natal do cineasta, Nápoles, a recuperar seu orgulho. “Eu sempre amei Maradona, por muitas razões”, disse o cineasta em entrevista ao Estadão.

“Ele marcou minha adolescência.” Mas sua ligação com o astro é ainda mais pessoal. No dia 5 de abril de 1987, o então adolescente Paolo Sorrentino foi ao estádio ver Maradona jogar pelo Napoli. Naquela noite, seus pais morreram, intoxicados com gás carbônico. É essa a história que ele conta em A Mão de Deus, longa disponível na Netflix que venceu o Grande Prêmio do Júri em Veneza e concorre ao Oscar de filme internacional no domingo, 27. 

O título é uma menção ao famoso gol de mão que Maradona fez contra a Inglaterra, nas quartas de final da Copa de 1986, que seria a última vencida pela Argentina. E à própria salvação do diretor, que provavelmente estaria na casa de montanha dos pais naquela noite, se não tivesse ido ver seu deus jogar. Mas Sorrentino, diretor de obras aclamadas como Il Divo, sobre o ex-primeiro-ministro Giulio Andreotti, A Juventude e A Grande Beleza, que ganhou o Oscar de produção internacional em 2014, nunca tinha pensado em transformar sua dor em cinema até pouco tempo atrás. “Há uns dez anos, eu comecei a coletar coisas sobre a minha cidade e a minha memória”, ressaltou ele. “No fim, achei que a melhor maneira de falar de Nápoles era por meio das minhas histórias pessoais.” Roma, de Alfonso Cuarón, foi para ele a prova de que uma história particular poderia ser de interesse universal. 

No filme, Fabietto Schisa (Filippo Scotti) é um adolescente tímido e sem rumo definido, apaixonado por futebol e encantado pela tia Patrizia (Luisa Ranieri), uma mulher belíssima, desinibida, que sofre violência doméstica e tem questões de saúde mental. Fabietto mora com os pais, o bancário Saverio (Toni Servillo) e a dona de casa Maria (Teresa Saponangelo), e com o irmão mais velho, Marchino (Marlon Joubert), bem mais descolado que ele. Os pais se dão bem, mas o casamento tem seus problemas. Ainda há os vizinhos e uma coleção grande de parentes barulhentos, que não perdoam nada e ninguém em nome de uma piada: “O humor sempre foi tudo para minha família e meus amigos. Ninguém era sério demais.”

 “Não sei se existe um humor especificamente napolitano, mas, se existir, eu tive sorte de ter nascido em Nápoles.” A vida de Fabietto é simples, até a tragédia acontecer. É então que ele vai procurar seu próprio caminho e encontra o cinema, com uma ajudinha do diretor Antonio Capuano (interpretado por Ciro Capano). 

Tocar em um assunto tão pessoal, segundo Sorrentino, não tornou o filme mais difícil do que os outros. “Todos são difíceis”, afirmou. “Eu fiquei muito feliz de fazer este longa, e claro que houve momentos dolorosos. Mas foi muito divertido andar pela cidade onde cresci e por lugares onde passava férias, como Stromboli.”

Claro que nem tudo é verdade em A Mão de Deus. “Minha abordagem foi ser sincero, ser honesto, para deixar que os sentimentos fossem os mesmos de quando eu era jovem”, contou Sorrentino. “Se os fatos eram interessantes em termos da dramaturgia, deixei que eles aparecessem exatamente como foram. Mas, se era necessário consertá-los, tudo bem.”

O diretor fez questão, no entanto, de rodar nos lugares importantes de sua adolescência, incluindo o prédio onde morou. “Foi bonito visitar essas locações. É difícil descrever em palavras o que senti”, avaliou o cineasta. A Mão de Deus, afinal, é uma história particular, mas também uma homenagem à sua cidade natal, a vibrante, caótica e linda Nápoles. 

Arriscar-se em um tom mais pessoal também mexeu com a estética. Sorrentino é conhecido pelo estilo rebuscado, cheio de movimentos de câmera e cenários extravagantes. Com frequência, foi comparado a Federico Fellini. “Eu amo Fellini, então para mim é maravilhoso ser comparado a ele”, garantiu. Se A Grande Beleza tinha um quê de A Doce Vida, ele discorda que A Mão de Deus seja seu Amarcord

Em A Mão de Deus, ele procurou se afastar dos floreios e apostar na simplicidade. “Sempre achei importante me divertir ao filmar, daí a procura da beleza estética. Mas não era o estilo certo para este filme”, analisou. “Porque aqui os sentimentos são mais importantes que a mise-en-scène, que a fotografia.” Ele não sabe, porém, se esse visual vai se perpetuar em sua carreira como cineasta. “Quando Martin Scorsese fez O Rei da Comédia, os críticos disseram que ele tinha mudado, que estava mais maduro. E ele respondeu que sim, mas que não queria ser maduro no futuro. Eu me sinto da mesma maneira. Eu não gosto de ser maduro.” O cinema, afirmou, é o jogo que nos permite ser crianças. “Às vezes você pode fazer um filme como um adulto, mas para mim é mais divertido fazer um filme como um garoto faria.”

É como um menino também que ele encara a indicação para o Oscar e até a campanha. “Este trabalho é maravilhoso, porque é como uma brincadeira. Esse negócio de premiação também é uma brincadeira. Então brinquemos.” 

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