Renée Nader/Divulgação
Renée Nader/Divulgação

Diretor mineiro sai premiado de vários festivais e prepara primeiro longa

Com seu curta ‘Tremor’, Ricardo Alves Jr foi laureado em todo o mundo

Marcelo Miranda , Especial para o Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 20h10

Deve ter sido um recorde. Desde quando estreou no Festival de Locarno, na Suíça, em agosto de 2013, Tremor, curta do diretor mineiro Ricardo Alves Jr, competiu, ao longo dos dois meses seguintes, em outros seis festivais. Saiu premiado de três: direção, fotografia e montagem de ficção no Festival de Brasília; melhor filme no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte e no Festival Kinoforum de Cinema de Londrina. Ainda deu tempo de ir a Portugal, ao Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, em dezembro, e levar o prêmio especial do júri. Tremor é o quarto filme de Ricardo desde sua estreia, em 2006, com Material Bruto. Seguiu carreira premiada no curta Convite para Jantar com o Camarada Stalin (2007) e no média-metragem Permanências, selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2011.

Caracterizado por um estilo bastante próprio, surgido na reconstrução espacial e imagética de ambientes e personagens encontrados na realidade, o cinema de Ricardo Alves Jr tem em Tremor, sobre um homem que anda pela noite de Belo Horizonte em busca do corpo da mulher desaparecida, um primeiro mergulho mais objetivo numa noção de narrativa. “Sempre fui interessado em pensar o atrito entre corpo e espaço e a relação com a performance no cotidiano. Tremor segue esse caminho, mas com um roteiro que explora a dramaturgia de maneira mais estruturada”, diz ele, em entrevista ao Estado. “É algo novo para mim, por trabalhar com uma narrativa mais ficcional. Mas segue a minha busca pela atmosfera, pelo trabalho sobre o plano e pelos jogos de luz e sombra.”

Nascido há 31 anos em Belo Horizonte, Ricardo se formou em cinema na Universidade de Buenos Aires. Apesar de seu trabalho aparentar influências de nomes do cinema autoral europeu, como Andrei Tarkovski, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Jean-Marie Straub e da produção atual da Romênia, ele não consegue se vincular a alguém em específico. “Sou muito intuitivo e instintivo. Não penso no diálogo com outros realizadores antes da criação nem tenho um estudo teórico aprofundado. Interessa fazer um trabalho sobre o plano, que vejo como a duração de um bloco de espaço e tempo. Talvez por isso, haja teatralidade nos meus filmes.”

Ricardo Alves Jr também tem experiência no teatro. Dirigiu, também em 2013, sua primeira montagem, o solo Discurso do Coração Infartado. Vencedor do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, foi feito em parceria com a atriz Silvana Stein e teve temporadas em Belo Horizonte, São Paulo e Brasília. “Silvana queria trabalhar com Hamlet, seguindo uma pesquisa de composição de personagens masculinos. Propus o encontro do universo de Shakespeare com o de Samuel Beckett e, a partir disso, começamos a construir o texto e a cena, que nasceram juntos nesse espetáculo.”

O plano do diretor mineiro para 2014 é a preparação de seu primeiro longa. Elon Rabin Não Acredita na Morte, já com distribuição garantida pela Vitrine Filmes antes mesmo de começar a ser feito, será uma derivação de Tremor. “O motor da história parte do mesmo personagem. Digamos que o Elon Rabin (que interpreta a si mesmo em Tremor e estivera no elenco de Material Bruto) é ele próprio o argumento do filme, mas coberto por uma trama de ficção”, adianta o cineasta.

Em seus três primeiros filmes, Ricardo fez do caos o elemento essencial de seu processo criativo como algo necessário para encontrar, em meio ao imprevisto e ao acaso, aquela fagulha que se tornaria a cena do filme. Tremor ensinou-lhe a lidar melhor com preparação, antecipação e busca por um impacto previamente pensado. “O que vou tentar fazer em Elon Rabin Não Acredita na Morte é a justaposição desses dois elementos – o caos e o controle.”

O projeto do longa tem apoio do Hubert Bals Fund de Desenvolvimento de Roteiro e foi premiado nos laboratórios de coprodução FIDLab, de Marselha (França), Buenos Aires Lab, na Argentina, BH CineMundi e New Cinema Network, do Festival de Roma. O roteiro tem sido desenvolvido em parceria com Diego Hoefel e o diretor português João Salaviza. Em março, Ricardo Alves Jr começa a busca de locações e elenco em Belo Horizonte. As filmagens estão previstas para 2015.

TRAJETÓRIA

‘Material Bruto’ (2006)

Filmado num centro da rede pública de saúde mental de BH

‘Convite para Jantar com o Camarada Stalin’ (2007)

Duas mulheres preparam mesa para visitante nunca revelado

‘Permanências’ (2011)

Mostra moradores de um conjunto habitacional em BH

‘Tremor’ (2013)

Durante uma noite, um homem tenta achar a mulher desaparecida

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