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Diretor John Boorman prossegue história de sua família com mais humor

'Rainha e País' leva para nova guerra o garoto de 'Esperança e Glória'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2015 | 04h00

Passaram-se 28 anos desde que John Boorman fez aquele que a maioria da crítica considera seu último grande filme. Não que O General e O Alfaiate do Panamá não tenham méritos, mas Esperança e Glória, de 1987, possui um encanto todo especial. Boorman, que já havia feito Excalibur, sobre a saga do Rei Arthur, se voltou para as próprias lembranças e descobriu, em seu ‘amarcord’, que a mãe, como a rainha Guinevère, viveu um triângulo com o melhor amigo de seu pai. Ele avança agora nas lembranças propondo uma sequência para Esperança e Glória. Rainha e País estreia nesta quinta-feira, 25, nos cinemas brasileiros, depois de passar na Mostra, no ano passado.

Esperança e Glória era sobre o menino John numa Inglaterra assombrada pelo fantasma dos bombardeios nazistas. Em Rainha e País, o menino cresceu e se alistou como voluntário na Guerra da Coreia. Em vez dos combates no front, ganha uma função burocrática. Com os hormônios a mil, enreda-se com as garotas que também estão entrando para o Exército. Em que momento desses quase 30 anos Boorman decidiu que queria voltar à história de sua família? “Desde sempre”, ele contou numa entrevista ao Estado, em setembro passado. “Quando fiz o primeiro filme, já pensava no segundo, mas, por se tratar de um projeto autobiográfico, achei que seria mais interessante voltar aos personagens dez anos depois. O tempo passou, não conseguia investidores para um filme tão pessoal. Terminei fazendo Queen and Country (título original) muito mais tarde e com menos dinheiro do que esperava, mas acho que deu certo.”

Se Esperança e Glória passa-se durante a blitz de Londres – e tem a cena antológica em que o garoto Boorman agradece a Adolf (Hitler) pelos bombardeios que suspendem as atividades da escola –, Rainha e País não tem nenhuma cena tão espetacular. É mais intimista e até a narrativa parece mais frouxa, não no sentido de carecer de força dramática, mas porque o diretor e roteirista resolveu transformar a jornada de autodescoberta do protagonista – dele mesmo – numa série de vinhetas sobre a vida em família e o aprendizado no Exército. Como contraponto a seu personagem, interpretado por Callum Turner, Boorman cria o amigo que só apronta confusão (Caleb Landry Jones).

Até que ponto tudo é verdade? “É incrível como, muitas vezes, fazendo ficção, nos mantemos fiéis aos fatos.” É o que Boorman, de 81 anos, jura que aconteceu no novo filme. Pode até ser que ele esteja sendo sincero, mas talvez seja bom dar um desconto. Porque, mais que um exercício de nostalgia auto condescendente, o filme é um humorado exercício crítico que, por momentos, se iguala ao clássico Mash, de Robert Altman, de 1971. É a surpresa do filme. Apesar dos lampejos de humor, Boorman sempre foi um diretor de dramas. Rainha e País trata a violência e a perda como comédia. Faz da guerra uma ciranda de confusões e desencontros. E não é o só o alter ego de Boorman que busca seu caminho. A própria Inglaterra parece estar se redefinindo como nação num momento crítico da derrocada do império.

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