Helena Barreto
Helena Barreto

Diretor João Fonseca estreia no cinema com 'Não Vamos Pagar Nada', inspirado em Dario Fo

Comédia com Samantha Schmütz tem DNA teatral e estreia nesta quinta-feira em cinemas que já estão abertos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 05h00

João Fonseca possui uma extensa trajetória como ator e diretor de teatro. Já montou peças de Nelson Rodrigues, Shakespeare, Bertolt Brecht. Recebeu inúmeros prêmios. Tem um pé – dançante – no musical, e foi um estouro de bilheteria com Tim Maia e Cazuza. Canto, dança – e humor. Fonseca dirige também o Vai Que Cola, no Multishow. Numa entrevista por telefone, do Rio, ele confessa que, apesar da quilometragem, está nervoso como um principiante. Não é para menos.

Nascido em Santos, em 1964, Fonseca estreia na direção de cinema com Não Vamos Pagar Nada. O longa estreia nesta quinta, 8, em praças nas quais os cinemas já estão liberados. A partir da outra quinta, 15, chegará ao streaming. De cara, o filme já diz a que vem. Samantha Schmütz corre atrás de emprego. Nada! Vai ao supermercado, com dinheiro contado para comprar o mínimo. Não dá e ela inicia uma confusão com o funcionário que remarca os preços, vivido pelo cantor Criolo que faz participação especial no filme. Termina desencadeando um movimento popular que resulta na palavra de ordem do título: ninguém vai pagar nada! Convenhamos que esse ponto de partida difere bastante das comédias que viraram blockbusters, interpretadas pelo rei da bilheteria, Paulo Gustavo, e por Monica Martelli, Ingrid Guimarães (saudades de De Pernas pro Ar), etc. O que faz a diferença é o texto.

Não Vamos Pagar Nada baseia-se na peça de 1974 de Dario Fo, ator, autor e dramaturgo italiano que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1997 e morreu, coberto de glórias, num hospital de Milão, nove anos mais tarde. “A peça foi encenada com sucesso no Brasil. O filme surgiu como um projeto da produtora A Fábrica, que se associou à Globo Filmes e me chamou para dirigir. Sempre fui louco por cinema, cinéfilo de carteirinha, desde que era garoto, em Santos. Não sabia que dirigir era tão bom. Gostei demais da experiência. O ruim é essa pandemia, que ninguém podia imaginar que íamos vivenciar. O lançamento não está sendo como esperávamos – o filme é distribuído pela H2O –, mas a expectativa é grande. E eu já sonho com meu segundo filme.”

Há 40 e tantos anos, quando Fo escreveu sua peça, a Itália atravessava um momento de crise institucional. Sequestros, assassinatos. “Nem foi preciso fazer mudanças no texto. Só tiramos uma questão de aborto, que tem a ver com a suposta gravidez das mulheres da história, e que achamos que não teria mais nada a ver com essa fase do Papa Francisco”, diz o diretor. Samantha Schmütz faz a protagonista Antônia. “Samantha é uma atriz que rouba a cena fazendo comédia, mas ela tem um registro amplo e torna a Antônia humana, sem forçar a barra. Trabalho com ela no Vai Que Cola e, como a Jéssica, sei do que é capaz. A surpresa, se é que posso dizer assim, foi o Edmilson Filho. Já o conhecia do Cine Holliúdy e colocava fé de que Samantha e ele teriam química. Não deu outra.”!

Fonseca é o primeiro a admitir que Não Vamos não nega seu DNA teatral. “Com exceção do início e, depois, a cena do supermercado, o filme se passa todo na sala e no quarto da casa. E não é só a locação. É o texto. Numa só cena, tínhamos 25 páginas de roteiro só de diálogo.” O repórter arrisca que Fonseca filmou com muitas câmeras para dar dinamismo ao diálogo na montagem. Certo? “Errado! O filme custou barato, não tínhamos esses luxos. Filmei tudo com uma câmera. De tanto repetir o diálogo para essa câmera, os atores já tinham o texto na ponta da língua. E não eram só a Samantha e o Edmilson. O Flávio Bauraqui, que faz o policial, a Flávia Reis como a amiga, o Fernando Caruso, o Leandro Soares, que criou o Vai Que Cola. Todo o elenco entrou no clima.”

O repórter evoca a grande tradição da comédia italiana – Dino Risi, Mario Monicelli, Luigi Comencini. Fonseca agrega mais um nome: “Gosto muito do Ettore Scola e, se houve um filme que me influenciou, foi o Feios, Sujos e Malvados, que vi muitas vezes. É um clássico na abordagem desses personagens no limite da marginalidade social, ou nas franjas da sociedade. O fato de serem pobres, de estarem atravessando dificuldades, não significa que não tenham esperanças, nem conceitos de honra. O problema é a desigualdade, que está na raiz da sociedade brasileira.” Mais uma coisa – Cacá Diegues tem um crédito de produção executiva. “Conversei com o Cacá, porque, afinal, sou um principiante e ele é um veterano que tem toda uma obra no cinema brasileiro. Cacá foi muito generoso. E me deu uma dica importante. Me disse para ver Milagre em Milão, o clássico de (Vittorio) De Sica.” A história de Toto Il Buono, que passa do neorrealismo ao fantástico servindo, como assinala Georges Sadoul no Dicionário de Filmes, de conteúdo metafórico a uma violenta crítica social.

Santos, no litoral de São Paulo, comédia italiana, impossível não lembrar a figura emblemática de Rubens Ewald Filho, que morreu em junho de 2019. Rubinho, como era chamado, também era santista. Por sua familiaridade com o Oscar, o público talvez o identificasse como ligado a Hollywood, mas ele amava a comédia italiana. Conheciam-se? “Rubinho foi meu farol no jornal A Tribuna de Santos. Devorara tudo o que ele escrevia, era referência. Mas só o conheci muito mais tarde, dirigindo musicais. Nossa última conversa foi sobre os indicados para o Oscar do ano passado. Tem coisas no filme que eu acho que ele ia gostar.”

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