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Diretor italiano Ermanno Olmi mostra em Berlim obra de tirar o fôlego sobre a Guerra

‘Torneranno I Prati’ é o testamento humanista de um grande artista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2015 | 18h36

ENVIADO ESPECIAL / BERLIM - Numa entrevista recente, quando Il Posto, sua obra-prima de 1960, saiu em DVD no Brasil, Ermanno Olmi falou com o repórter como se sua obra estivesse encerrada. Nascido e radicado em Bérgamo, o grande autor de 84 anos falou sem nostalgia sobre seu passado. Lembrou os filmes essenciais, viscerais – A Árvore dos Tamancos, que lhe deu a Palma de Ouro – e só lamentou que, no mundo globalizado, o humanismo fosse (seja?) considerado um discurso de outras eras, substituído por competência e concorrência, ou seja, mercado. A surpresa é constar que Olmi já devia estar trabalhando na surdina, pois mostra aqui, em Berlinale Special, seu novo filme, fora de concurso.

Torneranno I Prati é de uma beleza de cortar o fôlego. Se estivesse na competição, com certeza seria forte candidato aos prêmios. Começa de maneira calma. Uma planície ao luar. Neve e silêncio. É o prelúdio para um choque violento, pois o filme se passa durante a 1.ª Guerra. É um raro momento de cessar-fogo, e um soldado canta. Para quem? Para seu pelotão, para o inimigo, para ele mesmo. Wim Wenders, homenageado nesta quinta, 12, à noite com um Urso de Ouro especial, já filmou a solidão do goleiro distante do pênalti. Olmi filma a desolação dos soldados na antecipação da própria morte. Quanto vale a vida humana, e na guerra? O mundo atual vive em guerra. Todo dia ouvem-se notícias de combates, explosões. Olmi contrapõe a beleza de uma paisagem majestosa à fragilidade dos homens. Filmando de forma quase abstrata, logrou fazer o que talvez seja seu testamento humanista.

São 78 minutos de um rigor absoluto, e com a participação de atores conhecidos, como Claudio Santamaria e Alessandro Sperduti. Outra guerra, a 2.ª, está no filme alemão Elser, de Oliver Hirschbiegel. O título internacional é Thirteen Minutes, e o filme conta uma história real. Em 1939, um músico mulherengo e apartidário, horrorizado com o que se passava na Alemanha, concebeu um plano audacioso para matar Adolf Hitler. Por uma pequena fração de tempo – os 13 minutos do título –, não conseguiu. Com a morte do führer, ele teria mudado a história? O diretor conta como o individualista Elser resistiu à tortura mais brutal. Hitler e seus asseclas queriam tirar dele uma confissão que comprometesse os grupos que faziam oposição ao nacional-socialismo. Teria sido um banho de sangue. A história, em si, já é um horror. Outro horror é descobrir que foram necessários mais de 60 anos para que Elser fosse reabilitado como resistente, deixando de ser traidor da pátria, como o chamaram os nazistas.

O festival está terminando. Nesta sexta, 13, passam os últimos filmes da competição e, no início da noite, a Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, anuncia os vencedores do prêmio da crítica. No ano passado, o Brasil ganhou o prêmio na seção Panorama com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro. Este ano não faltam bons filmes brasileiros em diferentes seções. Na competição, quem será o preferido dos críticos? El Botón de Nácar, do chileno Patricio Guzmán, foi o melhor filme visto este ano aqui na Berlinale, mas está longe de ser uma unanimidade. Justamente a imprensa alemã foi a que menos gostou do filme. Isso terá influência na decisão do júri presidido por Darren Aronofsky?

Na sexta, 13, também será outorgado o Teddy Bear, o Urso de Ouro gay. Candidatos não faltam, e a festa terá show de Ingrid Caven, além de homenagem a Rainer Werner Fassbinder, além de Teddy Bear honorário para o ator Udo Kier. No sábado, 14, ocorre a entrega do Urso de Ouro – quem serão os premiados do júri de Aronofsky? O curioso é que esta edição da Berlinale não deixa de fechar um ciclo. Em 1951, no primeiro festival – numa Alemanha pós-guerra, que se reconstruía com os rios de dinheiro que os norte-americanos, por meio do Plano Marshall, despejaram na Europa, tentando conter a expansão comunista –, o rei do sonho americano, Walt Disney, foi premiado por uma animação, Cinderela. Passaram-se 64 anos e, fechando um ciclo, a 65.ª Berlinale exibe nesta sexta, 13, a Cinderela live action de Kenneth Branagh.

O ator e diretor shakespeariano adere aos contos de fadas – na tradição dos irmãos Grimm ou na vertente psicanalítica do revisionista Bruno Bettelheim? Seja como for, a Cinderela de Branagh promete. Lili James faz o papel, Richard Madden é seu príncipe e Cate Blanchett, como sempre pronta para roubar a cena, é a madrasta. O ator fetiche de Branagh, Derek Jacobi, faz o rei e Helena Bonham Carter, a fada-madrinha. Pode não parecer, mas o roteirista Chris Weitz acrescenta à curiosidade que o filme provoca. Afinal, ele escreveu Antz e American Pie, e dirigiu Crepúsculo – Lua Nova. Meio destrambelhado, mas tem diálogo com os jovens, e as crianças. 

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