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Diretor imprime refinamento em 'Cinderela' e tira ingenuidade da personagem

Kenneth Branagh concedeu entrevista ao 'Estado' em Los Angeles

Entrevista com

Kenneth Branagh

Elaine Guerini, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Março 2015 | 03h00

LOS ANGELES - Um encontro com Kenneth Branagh ajuda a entender por que o irlandês foi escolhido pelos estúdios Disney para gritar “ação” em Cinderela. Um gentleman, o cineasta de 54 anos, mais conhecido por assinar Thor (2011), Um Jogo de Vida ou Morte (2007) e Henrique V (1989), ainda se levanta da cadeira com a chegada de uma mulher à sala - no caso, a repórter. “Minha mãe me ensinou a ser um cavalheiro e a ter consideração pelos outros. Acho importante ter boas maneiras”, contou o diretor, que imprime refinamento e decoro na versão do clássico de animação de 1950. A superprodução de US$ 95 milhões acaba de chegar às telas brasileiras. 

“Vivemos num mundo em que a civilidade e a bondade parecem estar fora de moda. E foi justamente esses valores que procurei resgatar na mitologia da gata borralheira, sem que ela parecesse uma personagem improvável só por não estar contaminada com o deboche dos dias atuais.”

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Los Angeles.

Cinderela segue na contramão das últimas adaptações de conto de fadas, em que a tendência é acentuar o caráter obscuro dos clássicos. Isso foi proposital?

Foi. Até porque não queria um filme carregado de escuridão e sarcasmo. Por outro lado, a ideia também não foi filmar uma obra com a mesma ingenuidade da animação que a Disney lançou décadas atrás. Espero ter atingido um equilíbrio, trazendo um pouco a magia do original, mas com um pé na realidade. Sabemos que a vida é dura, mas o cinismo não é a única maneira de lidar com os problemas.

Ainda assim, Cinderela é altruísta demais para um personagem com proposta mais realista, não?

O fato de não termos trazido a história para os dias atuais nos favoreceu, permitindo que Cinderela conservasse a aura otimista de filmes antigos. Para que isso desse certo, sabia que tudo dependeria da forma como ela fosse apresentada ao público. Por isso, nós a vemos crescer num ambiente familiar feliz. Isso faz com que a plateia compre a ideia de que ela tem valores morais e fé na humanidade, apesar dos maus-tratos que sofre nas mãos da madrasta. 

Houve a preocupação em redefinir Cinderela para uma nova geração, reduzindo a passividade da personagem vista no desenho?

Nossa protagonista é uma mulher que faz escolhas por si mesma. Ela não se faz de vítima nem fica sentada esperando o príncipe chegar para salvá-la. O momento em que eles se conhecem, andando de cavalo na floresta, é crucial para estabelecer uma dinâmica de igualdade. Como um não sabe quem o outro é, a atração mútua é genuína e desinteressada, sem chance de Cinderela ver naquele homem uma espécie de tábua de salvação. 

Houve pressão na reconstituição da cena do baile, um dos momentos emblemáticos da animação?

Sim. Desde o início, a Disney queria que o baile fosse uma espécie de experiência sensorial do espectador - como se ele estivesse lá, usando aquelas roupas elegantes. Problemas logísticos quase me deixaram louco antes da realização da cena, que consumiu cinco dias de filmagens.

Quais?

Para começar, os lustres do saguão que levavam 2,5 mil velas. Foi um sufoco conseguir uma solução para manter a iluminação à moda antiga por mais de 8 horas de filmagem diária. Imagine se tivéssemos de trocar de velas a cada duas horas?

Qual a mulher que mais o inspirou em sua vida?

Minha mãe, por ela ter encontrado tempo para trabalhar fora e ainda nos educar, enquanto meu pai passava o dia todo fora (como encanador ou marceneiro). Olhando para trás, me impressiono com o número de refeições que preparou para nós, enquanto morávamos com eles. Fico até com remorso quando me lembro das minhas reclamações à mesa. “Ah, não! Feijão de novo...”, dizia eu, sem me dar conta de como estava sendo ingrato.

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