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Diretor Hans Peter Molland fala de ‘O Cidadão do Ano’, que tem vocação para o absurdo e a morbidez

Filme norueguês está em cartaz nos cinemas brasileiros

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 03h00

Embora O Cidadão do Ano conte uma história violenta de vingança, existem cenas no novo filme do norueguês Hans Peter Molland que parecem dignas de comédia. Stellan Skarsgaard faz um pai obcecado para vingar a morte do filho. A polícia descarta o caso como overdose acidental, mas o pai investiga, descobre que o assassinato foi cometido pela Máfia de Oslo. Um a um, ele vai matando os capangas do chefão que controla o crime. Esse, acuado, credita o assalto a sua cidadela como coisa dos sérvios, com quem disputa o poder. A guerra fica cada vez mais sangrenta. Nesse quadro, o Conde, que lidera os noruegueses, vira uma figura caricata, por seu comportamento infantil. E Bruno Ganz, à frente dos sérvios, parece mais interessado em se divertir na neve. A própria polícia, atormentada pelo inverno atroz, também se recusa a sair do carro quentinho para verificar o que ocorre lá fora.

A todas essas, Skarsgaard, um sujeito tão correto e aparentemente inofensivo que ganhou o título de ‘cidadão do ano’, vai se fortalecendo por seus golpes de audácia que nem ele sabia possuir. Mas não vira um super-herói nem um monstro justiceiro. Conserva a humanidade nesse caminho sem volta que escolheu trilhar. Skarsgaard é um ator internacionalmente conhecido por seus papéis em Hollywood e nos filmes de Lars Von Trier, como Ninfomaníaca (1 e 2). Ele tem colaborado com Molland. O filme deles passou no Festival de Berlim. Ganhou elogios – o cinema de gênero está longe de se esgotar. O filme tem vigor crítico e beleza cinematográfica. Mesmo assim, há quem o considere um simples exercício de estilo, mais que um drama poderoso. Questão de olhar. O Cidadão do Ano é muito bom. 

Seu título original é By Order of Disappearence, Por Ordem de Desaparecimento. A cada morte provocada por Skarsgaard, Molland escurece a tela e coloca uma cruz como despedida para o personagem que está indo embora. Em Berlim, num encontro com um grupo de jornalistas de todo o mundo, o diretor disse que sempre quis contar as histórias de um homem feliz, satisfeito consigo mesmo, e cuja vida ingressa num pesadelo. “Uma comédia com vocação para o absurdo e a morbidez”, definiu. O filme foi rodado em locações, com temperaturas de menos 30 graus. “De certa forma, foi um desafio para todo o mundo, mas os atores e técnicos conseguiram sobreviver ao gelo e o resultado são essas imagens esplêndidas.

O diretor agradece a seu fotógrafo como ao roteirista e ao ator, que têm sido parceiros. “Ogaard (o fotógrafo) colabora comigo há tempos, como Kim Fupz Akeson (o roteirista). Minha colaboração com Kim é tumultuada, mas funciona. Trabalhamos na base da dialética. Defini o ponto de partida, ele foi desenvolvendo os personagens. Quase sempre discordamos, mas é assim que eu o forço a testar novas possibilidades e, no final, a história vai sendo armada. Quanto a Stellan, é um daqueles atores a quem você pode pedir não importa o que, e ele vai fazer bem.” Molland reflete sobre a função de diretor – “Não é fácil dirigir filmes, mas confesso que gosto mais de estar no set do que aqui, com vocês, jornalistas. Gostaria se pudéssemos conversar, mas entendo que a função de vocês é ser advogados do Diabo. Como diretor, tenho de bancar Deus, para ser o criador no espaço do meu set. Só que, ao contrário de Deus, e mais no espírito do personagem de Stellan, estou convencido de que o acaso e a sorte têm funções muito ricas num filme. As boas coisas às vezes ocorrem à margem do esforço e da preparação do diretor e sua equipe.”

Nesse mundo moderno em, que ele, como seu personagem, se movimentam, há muita desconfiança. “O homem moderno vive cercado de câmera de segurança e isso dá a medida da instabilidade das sociedades em que vivemos. Meu filme reflete sobre isso, mas reflete de uma maneira talvez instintiva. Já é uma coisa tão arraigada no nosso inconsciente que você não precisa mais pensar. Está lá.” Como diretor, exatamente como o espectador, Molland quer ser surpreendido. “Ainda tenho imenso prazer em ver filmes de outros diretores. E gosto de muitos – dos italianos e franceses. Fellini, De Sica, Sorrentino. E François Truffaut, Jean-Pierre Melville, que fazia magníficos filmes policiais e de gângsteres, com um grau de estilização realmente notável. Isso é outra coisa importante. A consciência de que todas as boas histórias já foram contadas. Não adianta você querer acreditar que está inventando alguma coisa. É melhor ter consciência de que, para deixar sua marca, você precisa colocar algo pessoal no caminho que outros já percorreram.”

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