Diretor Gregório Graziosi, de Obra, elogia o protagonista Irandhir Santos

Diretor Gregório Graziosi, de Obra, elogia o protagonista Irandhir Santos

‘Gosto muito da tensão que ele consegue transmitir', diz o cineasta

Entrevista com

Gregório Graziosi

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2015 | 05h00

Gregório Graziosi é filho e neto de arquitetos. Apaixonado por São Paulo, fez da arquitetura da cidade a protagonista de seus curtas e, agora, personagem importante de Obra, seu longa em cartaz nos cinemas. Em menos de um ano, Obra circulou por importantes festivais no País e no exterior. Recebeu prêmios no Rio e em Havana. Graziosi fala de seu belo filme e, claro, de seu excepcional ator, Irandhir Santos.

Irandhir não foi sua primeira escolha para o papel. Como chegou a ele?

Havia escalado Júlio Andrade para o papel, mas aí dei assessoria para o longa de um diretor pernambucano (Permanência, de Leonardo Lacca), que teria cenas aqui em São Paulo. Fui ao set e fiquei impressionado com Irandhir, que era o protagonista. Havia nele uma tensão que eu precisava para o meu arquiteto. Resolvi mudar, mas queria manter o Júlio, que é um ator a quem admiro muito. Fiz dele o antagonista, o mestre de obras que completa o arquiteto.

Como você diz, Irandhir é impressionante no filme todo, mas em especial na cena em que troca de roupa. É um homem fora do eixo, concorda?

Como diz a mãe, reclamando dos homens da família – eles não verbalizam suas angústias. Consomem-se, internamente. A hérnia de disco, com todas as consequências, vem daí. Venho de uma família de arquitetos, e de homens silenciosos. Não verbalizamos. Conheço esse comportamento. Quanto à cena que você fala, gosto muito da tensão que o Irandhir transmite. É um ator excepcional. E vou dizer uma coisa que vai surpreendê-lo mais ainda. Tínhamos duas tomadas da cena. O montador superpôs as duas e você não vai acreditar, mas a precisão dos gestos de Irandhir era tão grande que as imagens bateram completamente.

Seu filme vem a público num momento de denúncias contra empreiteiras. E ele trata justamente desses esqueletos no canteiro de obras, que o personagem de Júlio Andrade quer denunciar. Ganhou atualidade?

Sem dúvida, mas, para mim, a essência de Obra é a questão da paternidade. Irandhir é vítima da maldição que atinge os homens da família, mas ele é consciente. Por mais doloroso que seja, o confronto com o mestre de obras o confronta com passado e futuro. Para mim, é um filme que fala de esperança. Seu filho, que nasce, talvez consiga se libertar. Temos feito debates com representantes de entidades que defendem direitos humanos e, sim, o filme que tinha uma dimensão há um ano, ganhou outra.

A arquitetura, o preto e branco, a solidão e a incomunicabilidade, tudo remete a Michelangelo Antonioni. Foi uma referência?

Antonioni, (Bernardo) Bertolucci, os italianos. Antonioni tem a questão da arquitetura, da cidade, que me apaixona. Mas tenho de dizer que fui muito influenciado pelo pintor dinamarquês (Vilhelm) Hammershoi.

Você acaba de fazer um curta com o diretor francês Nicolas Klotz, que esteve em São Paulo. Como foi?

Havia ido ao debate dele no Cinesesc e o Klotz e a mulher, Elizabeth Perceval, viram Obra. Gostaram muito e ela fez uma bela análise do final, ressaltando a pegada política do filme. Nicolas achou minha namorada (Sofia Carvalheira) muito interessante e fez um filme conosco. Me elogiou como ator. (Risos) Nunca havia me colocado na frente de uma câmera. Foi uma experiência inédita, e ainda mais ser elogiado por um diretor tão grande. 

ENTREVISTA: Irandhir Santos, protagonista do filme Obra, emenda filmagem em São Paulo e no Recife

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