Jessica Forde/KG Productions
Jessica Forde/KG Productions

Diretor grego Constantin Costa-Gavras aborda crise econômica de seu país em novo filme

'Jogo do Poder' encena, de forma ficcional, o drama do seu país de origem ao tentar renegociar a imensa dívida externa, sob o assédio da Troika – o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 05h00

Em 1968, o cineasta Constantin Costa-Gavras fustigou o regime dos coronéis gregos no antológico Z, ícone do cinema político da época. Radicado na França há muitos anos, Costa-Gavras agora volta, meio século depois, à problemática realidade do seu país de origem. Não mais assediado pelo militarismo, como nos anos 1960, mas afrontado por imposições econômicas da Comunidade Europeia, da qual faz parte. 

Em Jogo do Poder, em cartaz nos cinemas, Costa-Gavras encena, de forma ficcional, o drama do seu país de origem ao tentar renegociar a imensa dívida externa, sob o assédio da Troika – o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. 

Depois de sete anos de crise econômica, a Grécia vive um momento de esperança com a eleição em 2015 de Alexis Tsipras (Alexandros Boardoumis) pela coligação de esquerda Syriza. Yanis Varoufakis (Christos Loulis), o novo ministro das Finanças, terá a nada fácil missão de reestruturar a dívida, pois o plano de austeridade, desejado pela autoridade econômica, apenas levaria mais desgraças para o povo grego.

A estratégia do filme é retratar Yanis como uma espécie de outsider, peixe fora d’água nos ambientes palacianos pragmáticos, onde se discute o futuro das nações. De um lado, a ortodoxia econômica representada pelo homem forte das finanças, o alemão Wolfgang Schäuble (Ulrich Tukur), preso a uma cadeira de rodas e inflexível como uma rocha neoliberal. De outro, a vontade heterodoxa de Yanis, disposto a quebrar a rigidez financeira e propor uma imaginativa reestruturação da dívida, de modo que o ônus não recaia sobre os mais frágeis. 

À sua maneira realista, Costa-Gavras descreve com grande mestria essa batalha de bastidores. Uma guerra nada limpa, em que palavras empenhadas pouco valem e a falta de empatia parece ser a moeda mais corrente e estável da comunidade. 

Não se trata de vilanizar um dos lados e heroicizar o outro, embora o filme seja baseado no livro de memórias de Yanis Varoufakis, Adults in the Room, o título original do filme. A frase – é preciso que haja adultos na sala – teria sido pronunciada pela então presidente do FMI e atual presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde (Josiane Pinson), num dos muitos impasses entre as partes. Becos sem saída que, tomando cores emocionais, conduziam os líderes a comportamentos teimosos, emocionais e, no limite, infantis. A ideia central é mostrar até onde pode ir a complexidade do conflito de interesses, capaz de sobrepujar até mesmo decisões democráticas de um país-membro. 

Costa-Gavras é uma espécie de especialista em cinema político, embora o “gênero” seja de difícil definição. Ainda mais num tempo como o nosso em que tudo é visto como “político”, das artimanhas do governo às lutas identitárias e de controle do próprio corpo. Essa generalização pode trazer alguns inconvenientes, porque se tudo é político, nada o é, de maneira específica. Culpa de leituras a jato do filósofo Michel Foucault, com sua microfísica do poder e políticas do corpo. Costa-Gavras, digamos assim para simplificar, atém-se a uma delimitação mais estrita do âmbito político. Fala de ditaduras, arbítrios, abusos do Estado, do poder político e econômico, de lutas de liberação e pela democracia. 

Com a trilogia Z (1968), A Confissão (1970) e Estado de Sítio (1972), firmou-se como um dos principais e talvez o mais conhecido autor a se dedicar a esses temas. No primeiro, a ditadura grega; no segundo, os regimes autoritários do Leste Europeu; no terceiro, as ditaduras militares do Cone Sul. Seu filme mais famoso talvez seja Missing (1982), em que se debruça sobre a ditadura chilena. 

Tratou desses assuntos – em geral indigestos, porque críticos a regimes arbitrários – com seu estilo realista, e de grande eficácia. Trata assuntos duros em linguagem de thriller policial e, com isso, abre diálogo com um público mais amplo. Essa mescla parece criativa, mas não há unanimidade em torno do autor. Tido como mestre por alguns, Costa-Gavras também é costumeiramente atacado por parte da crítica, sob o argumento de que não faz cinema revolucionário, porque sua forma é tradicional. Essa ideia deriva do aforismo de Maiakovski, para quem “não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”. Tese talvez a ser discutida, mas um tanto fora de moda nas elucubrações estéticas contemporâneas. 

Saindo de seu registro habitual, em Jogo do Poder, Costa-Gavras fornece pelo menos dois momentos de grande cinema, nos quais o realismo cede lugar a uma versão mais poética da imagem. Numa delas, o povo se aglomera, em silenciosa cobrança, diante da janela de um restaurante de luxo onde Yanis janta com a esposa. Noutra, as negociações de cúpula se transformam em gracioso bailado entre os participantes, a dança macabra do poder. 

Diga-se o que se quiser, mas o que se vê é um Costa-Gavras em plena forma, aos 88 anos. Seu gume crítico continua afiado ao denunciar os abusos do poder. Concentra-se agora no poder econômico e em seus desvios, como fizera com O Capital (2012) e agora faz com Jogo do Poder. Abusos que são a estrutura da mesma ordem mundial. 

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