Diretor fala ao Estado sobre ‘Alabama Monroe’, indicado ao Oscar de filme estrangeiro

Felix Van Groeningen diz que foi atropelado pela peça em que se baseou "como, às vezes, a gente é atropelado na vida"

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2014 | 18h51

Felix Van Groeningen conversou com o repórter na noite de quarta-feira pelo telefone. Estava em sua casa, na Bélgica, a poucas horas do anúncio dos indicados para o Oscar. Seu longa Alabama Monroe foi indicado para concorrer ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira. Van Groeningen admitia que estava agitado. No final, o repórter deu-lhe um conselho – disse-lhe que fosse dormir um pouco, porque poderia ter um dia mais agitado ainda, como de fato dever ter tido. “Nunca viajei tanto na minha vida como nas últimas semanas. Fui três vezes a Los Angeles participar de eventos relacionados ao Oscar. É desgastante, mas também estimulante. Fala-se tão mal do cinema de Hollywood, mas há um interesse muito grande pelo olhar de fora. Eles querem saber quem você é, o que faz, como podem ajudar.”

 

 

Alabama Monroe chama-se The Broken Circle Breakdown no original. O título com que será lançado no Brasil foi dado pelo distribuidor francês. Colou. Para o espectador que só conhece do cinema belga os irmãos Dardenne, o próprio diretor esclarece. “Somos muito diversos, não só em termos de método. Eles filmam de preferência na cidade. Eu sou flamengo, da região de Flandres.” Não é só o cenário rural – é uma questão de cultura também. Alabama baseia-se numa peça de teatro que deixou o diretor, como ele diz, ‘chapado’.

“A peça tinha dois personagens em cena, um casal. Ambos iam contando sua história de vida durante o que parecia um show musical, entremeado de músicas.” A peça deixou Van Groeningen emocionado. “Fiquei muito tocado pelo tema da separação do casal, ditada por uma perda que levará a um resultado trágico. Sabia que alguém ia morrer, e, mesmo assim, fui surpreendido. Fui atropelado como, às vezes, a gente é na vida.”

A música é o bluegrass, que não é exatamente um blues, mas um country de raiz. “Queria manter essa riqueza e, para isso, fugi ao que seria cinema de gênero. O filme é melodrama, musical, tragédia, tem até humor.” Ele queria a vivência rural, por mais que, lá pelas tantas, a história se transfira para um hospital (e a cidade). “E adotei uma estrutura que é minha, viajando no tempo para mostrar como a vida muda as pessoas.” E ele confessa – “Fiz esse filme como uma espécie de homenagem a meus pais. Eles sempre foram bicho grilo, gostando da vida alternativa, no mato. Sou um produto dessa opção deles. O próprio ator que faz o protagonista, e que dirigiu e interpretou a peça no teatro – Johan Heldenbergh –, é meio bicho grilo. Se meu filme for mesmo para o Oscar, vai ser de viés, como representante não do mainstream, mas da vida alternativa. Da sustentabilidade, pode-se dizer.”

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