Paulo Belote/Globo
Paulo Belote/Globo

Diretor e roteirista Jorge Furtado inicia curso de escrita de roteiro

Curso é ministrado enquanto ele prepara uma versão de 'Grande Sertão: Veredas' para o cinema

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

16 de março de 2021 | 05h00

Preparando uma versão de Grande Sertão: Veredas atualizada para os novos tempos, a ser dirigida por seu habitual parceiro Guel Arraes, assim que a pandemia deixar, Jorge Furtado vai escrever um novo capítulo de sua história com a dramaturgia nacional, só que não no posto de roteirista e, sim, de professor. A partir desta terça-feira, 16, ele inicia um curso de escrita de roteiro no Centro Cultural b_arco, desenvolvido numa sinergia com a Casa de Cinema de Porto Alegre (sua produtora, no Rio Grande do Sul) e o Projeto Paradiso.

Aos 61 anos, o diretor e roteirista tem renovado seu diálogo com as novas gerações graças ao sucesso de sua série mais recente, Todas as Mulheres do Mundo (derivada do filme homônimo de Domingos Oliveira), na Globo, na qual assinou êxitos de audiência como Mister Brau e Sob Pressão. E essa renovação promete ser ampliada ao navegar pelo b_arco com aspirantes a autores. Laureado com o Prêmio do Júri da Berlinale 1990 para Ilha das Flores, o curta-metragem mais cultuado do Brasil, o realizador de longas como O Homem Que Copiava (2003) revisitou saudades, sucessos e ideias não desenvolvidas atrás de assunto para as 27 aulas que idealizou. 

Elas podem ser vistas no período de um ano, quando e onde o internauta quiser, abrindo um novo formato de seminários gravados: o b_arco on. Informações podem ser acessadas por meio do site https://barco.art.br/. Os colóquios de Furtado vão abordar temas fundamentais do roteiro cinematográfico: os elementos da linguagem, as etapas de desenvolvimento da trama, a criação de personagens, os diferentes gêneros e formatos. Ao Estadão, ele adiantou parte do que vai expor a seus estudantes, falou de um livro de aventuras que está prestes a lançar e ainda deu detalhes sobre sua visita à prosa rosiana.

De que maneira um curso de roteiro ajuda um roteirista a afiar a sua relação com a palavra e ampliar a relevância do diálogo na maneira de escrever para o audiovisual?

Aprendi algumas coisas fazendo esse curso, gravando o material didático. Acumulo anotações sobre o ato de escrever roteiro desde 1993. Em 1994, dei um primeiro curso sobre o assunto. Não tinha feito nenhum longa ainda, mas dei um curso de roteiro de curta-metragem e de televisão. Depois, fui convidado para dar aula na escola de San Antonio de los Baños, em Cuba, e preparei o material para duas semanas de aula. Desde então, venho aperfeiçoando as anotações. Elas foram crescendo e ficaram com 600 páginas. Cada vez que volto a esse arquivo, aprendo coisas novas. Por exemplo, agora para fazer o curso, revi muitos filmes de que falo no curso e reli alguns livros, como O Processo de Criação no Cinema, do John Howard Lawson. É um livro que tinha lido em 1983 e tinha gostado. Agora, relendo, eu entendi muito mais coisa. Tenho muitas referências a mais hoje do que tinha na época, mas pareceu que estava lendo o livro pela primeira vez. A gente sempre aprende ensinando.

Seu próximo projeto para o cinema é Grande Sertão: Veredas, a ser dirigido por Guel Arraes. O que esse projeto promete de novos olhares sobre a obra de Guimarães Rosa?

Grande Sertão: Veredas é um projeto muito antigo. Eu e o Guel falávamos disso há muito tempo e finalmente conseguimos realizar. O projeto já deveria ter sido filmado se não fosse a pandemia. Foi um trabalho intenso que tivemos por mais de um ano, trabalhando no roteiro desse livro, que na minha opinião, é o maior romance da língua portuguesa. É um livro espantoso. Sempre que volto a ele me espanto de novo. É uma história muito atual sobre a violência, um livro sobre o amor e a guerra, um épico trágico que funciona sempre em qualquer época e cultura. Uma grande história, que a gente procurou atualizar, mostrando o quanto ela é atual e mantendo uma das grandes riquezas que é a linguagem do Guimarães Rosa. Não existe uma palavra fora lugar.

O que é o livro de aventuras que você prepara e de que forma a incursão na literatura interfere na sua forma de escrever para o audiovisual?

É um livro de ação, que conta uma aventura no século 17. Conta uma história de aventuras, meio infantojuvenil ou adolescente, com ilustrações lindas do Eduardo Oliveira. Ele dialoga, na minha cabeça, com os livros que me formaram na adolescência, como Robinson Crusoe, As Viagens de Gulliver, Os Três Mosqueteiros, todos eles de ação. Escrevi há dois anos. Era para sair no ano passado e sairá este ano, no segundo semestre. Chama-se A Dama Negra, é uma história sobre piratas e navios, que mistura Shakespeare. É tudo pensado para ser transformado em roteiro de quadrinhos ou de filme.

Em meio a essa incursão literária, você não parou de escrever roteiros, como o da série 'Amor e Sorte', exibido em meio à pandemia. Existe um método Jorge Furtado de escrever roteiros? Como ele funciona? Como entra a pesquisa na dinâmica dele?

Meu método é: sentar, escrever e trabalhar. Escrever todos os dias, botar fora muitas coisas, reescrever. Escrever é reescrever, quem escreve sabe disso. E, nessa dinâmica, a pesquisa é totalmente fundamental. É, não só, a parte mais importante como é a parte mais divertida. Quando comecei a escrever a história desse meu livro A Dama Negra, pesquisei sobre os piratas no século 17. Foram leituras sobre o que eram os piratas, como eram, o que representavam. Pesquisei quem era (o corsário inglês) Francis Drake e como mudou o mundo. Essa pesquisa é muito interessante e dá muitas ideias. Pesquisando, a gente vai encontrando coisas que, às vezes, nem estava procurando. No seriado Sob Pressão, a pesquisa que a gente fez nos hospitais foi fundamental para criar o personagem da Doutora Carolina, para entender mais sobre as pessoas que se automutilam. No Todas as Mulheres do Mundo, ler todas as obras do Domingos Oliveira foi essencial. Sempre é uma parte que me atrai muito no trabalho.

A “streaminguesfera” parece ter se tornado um parque de diversões para quem trabalha com roteiros. O que o streaming oferece hoje de mais inovador aos roteiristas nacionais?

Não sei se você se refere ao que é bom ver. Se a pergunta é essa, acho que existem muitas séries boas sempre para assistir. Gostei muito de 8 em Istambul, uma série turca que é um melodrama muito inovador em termos de roteiro, com grandes personagens. Euphoria foi uma série muito interessante em termos de roteiro. I May Destroy You é uma experiência interessante de dramaturgia também. Vale a pena conhecer o trabalho da Phoebe Waller-Bridge, que fez Fleabag como atriz e roteirista e ainda fez Killing Eve apenas como roteirista. Ela é uma grande roteirista e ótima atriz. Agora... se a pergunta é sobre como os roteiristas brasileiros se relacionam com o streaming, existe uma questão a ser discutida: o fato de os streamings permitirem propostas inovadoras. São muitas plataformas com muitos formatos. Tem de tudo, tem documentário, falso documentário, tem ficção, comédia, musical. Tem espaço para qualquer invenção. Quem poderia dizer que um dos maiores sucessos mundiais fosse uma série sobre um jogo de xadrez, como O Gambito da Rainha? Histórias inovadoras e interessantes acabam encontrando um lugar por existirem muitas mídias disponíveis.

Tudo o que sabemos sobre:
Jorge Furtadocinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.