Diretor do Festival de Berlim seleciona brasileiros

Sim, haverá filmes brasileiros no próximo Festival de Cinema de Berlim. A quase três meses para a 51ª edição do primeiro festival classe A de 2001 - de 7 a 18 de fevereiro, a caça aos participantes é frenética e chegou ao Brasil. Wieland Speck, há nove anos diretor da seção Panorama e também conselheiro da mostra competitiva, passou a última semana entre São Paulo e Rio, garimpando filmes elegíveis. Em São Paulo, usufruiu ainda da pré-estréia internacional de seu primeiro documentário, em co-direção com Andrea Weiss - Escape to Life, com foco no exílio de Erika e Klaus Mann, filhos do escritor Thomas Mann, e exibido na mostra Mundo Mix. Em sua temporada brasileira - a terceira na função - assistiu a 12 longas e a 5 documentários e antes de voltar para a Alemanha deixou escapar que a presença brasileira fará parte, de alguma forma, do festival que vem demonstrando uma recepção bastante positiva ao cinema brasileiro da retomada. Além do duplo prêmio para Central do Brasil em 1998 - melhor filme e atriz, para Fernanda Montenegro -, Berlim escalou O Que É Isso, Companheiro? para a competição em 1997, quando promoveu também uma mostra de oito filmes, realinhando o público europeu com a produção recente. Um Copo de Cólera e O Primeiro Dia foram exibidos fora de competição em 1999 e coube a Bossa Nova encerrar o festival do ano passado. Wieland Speck enfatiza que a ausência brasileira da competição desde 1998 não deve ser interpretada como uma rejeição: "Acredito que a produção brasileira vem revelando um nível muito bom de estabilidade." Afável e descontraído, mas discretíssimo quanto ao que viu na última semana, a partir de uma pré-seleção realizada por José Carlos Avellar, presidente da RioFilme e delegado do evento no País, Speck não revela os filmes a que assistiu nem menciona diretores. No páreo, podem estar Amores Possíveis, de Sandra Werneck, Bufo & Spallanzani, de Flávio Tambellini, Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzki, ou, quem sabe, um título inesperado detectado pelo olhar de quem está há 20 anos ligado ao Festival de Berlim e conhece bem os meandros que conduzem à seleção. Mudo, portanto, em relação ao Brasil, ele prefere comentar as impressões que trouxe da Argentina, sua parada anterior a São Paulo: "O cinema argentino vive uma fase de grande vitalidade, com jovens talentos fazendo filmes muito interessantes com pouco dinheiro." O entusiasmo pode significar uma representação latino-americana mais consistente que a do ano passado, restrita ao filme de Bruno Barreto. Com mais de 400 filmes vistos até agora - e o total deve chegar a mil até fevereiro -, Wieland Speck não esconde que o sonho de todos os festivais é apresentar uma nova tendência, o que não é fácil. "As expectativas são sempre altas: encontrar produções que sejam um sucesso para o festival, para o público, para o diretor. Queremos um final feliz, como na vida." Embora a seleção competitiva seja resultado de uma soma de decisões, Speck decide os filmes do Panorama e dá pistas de seus alvos: "Filmes especiais, com uma forte identidade cultural que reflitam transformações sociais. Os alemães adoram." E explica: "O Festival de Berlim tem a característica de ocorrer em uma grande cidade, na qual o público está habituado a uma enorme oferta cultural o tempo todo. E por isso é muito exigente. Nossa intenção é mostrar obras que agradem a esse público e à imprensa e que tenham uma carreira pós-festival. Para isso, têm de chamar a atenção de compradores e distribuidores." Ele cita o exemplo de Um Copo de Cólera, que mesmo exibido fora de competição foi distribuído na Itália com razoável sucesso. "Filmes agradáveis não fazem a cabeça do público de Berlim", avisa, embora Bossa Nova pudesse ser tranqüilamente integrado nessa categoria. "Esse é um bom exemplo. O filme não é apenas agradável - ele é também muito charmoso, inteligente e espirituoso e nesse sentido tem força. Depois de alguns minutos, o espectador simplesmente se entrega." Em seu périplo em busca de novas produções, além de assistir às que chegam a Berlim de todo o mundo pelas inscrições, Wieland Speck tem sentido nas retinas os efeitos da globalização: por um lado, cinematografias de forte identidade, como a asiática e a iraniana, por outro, altas doses de repetição de padrões hollywoodianos, "muito próximos ao que se vê na TV", destaca. Há, obviamente, exceções e pelo menos 45 delas (na categoria longa de ficção) deverão passar pelo crivo da comissão de seleção para as mostras oficiais. Pelo que viu até agora - ou pelo que se permitiu falar -, Wieland Speck deixou no ar que uma grande novidade está a caminho: "Talvez a última grande revelação tenha sido o uso do videodigital, sobretudo a partir do Dogma de Lars Von Trier e seu grupo, mas a difusão do suporte tem demonstrado uma perda da linguagem cinematográfica e de consistência. O que parecia muito moderno há poucos anos, pode estar virando fórmula, um perigo que sempre ronda as novidades tecnológicas." E adianta: "Mas tudo tem dois lados, se mais gente está fazendo filmes e se a linguagem avançar, definindo um estilo, teremos um saldo positivo." Diplomático e cauteloso em suas opiniões, Speck não concorda, porém, que o Festival de Berlim privilegie a produção americana, uma marca dos últimos anos: "Geralmente essa é a opinião das pessoas que correm para ver as últimas produções americanas e ignoram filmes como Central do Brasil. A presença americana tem uma função importante em um festival, pois atrai a atenção e indiretamente acaba contribuindo para a visibilidade de filmes de outros países. Mas não temos culpa se as pessoas correm para ver os filmes de Hollywood e não os outros." De qualquer forma, a importância da visibilidade em um festival também se aplicaria a filmes europeus, cada vez mais restritos às telas dos países em que foram produzidos. "A verdade é que o cinema europeu viaja pouco, até mesmo dentro da Europa. Uma das metas do festival é propiciar o interesse de distribuidores e exibidores para que mais filmes ultrapassassem as próprias fronteiras. Há várias iniciativas nesse sentido, por intermédio de pequenas distribuidoras que começam a atuar em vários países. Na Europa, acho que um bom exemplo continua sendo a França que acredita que o cinema faz parte da sua cultura e, portanto, da vida das pessoas e por isso deve ser apoiado. Na minha opinião, esse é um exemplo a ser considerado."

Agencia Estado,

28 de dezembro de 2000 | 11h29

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