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Diretor decifra o segredo das águas em 'Ventos de Agosto'

Filme de Gabriel Mascaro tem um mistério próximo ao longa da japonesa Naomi Kawase, ao qual agora é comparado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2014 | 03h00

Gabriel Mascaro fazia uma viagem de recreio por Alagoas. Foi parar em Porto de Pedras, distante 100 km de Maceió. “A praia é muito bonita, mas não chega a ser diferente do que o Nordeste todo oferece. O que me impressionou foi a descoberta de um cemitério que está sendo tragado pelo mar. Comecei a indagar e as pessoas contaram que as ossadas eram levadas pelas marés. De cara senti que aquilo dava filme. Inscrevi num concurso, ganhei US$ 50 mil e foi com isso que filmamos. Ventos de Agosto nasceu da urgência que o material despertou em mim.”

Algo se passa na atual leva de filmes pernambucanos. Todo mundo, em filmes como A História da Eternidade (Camilo Cavalcanti), Sangue Azul (Lírio Ferreira) e Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (Daniel Aragão), está sofrendo da síndrome de Cláudio Assis, com histórias fortes que remetem a uma sexualidade (quase) explícita. O problema é que só existe um Cláudio Assis. Mas há espaço para as experimentações de Gabriel Mascaro. Embora jovem, ele já provocou sua dose de polêmica com Doméstica. Mascaro propôs a diferentes pessoas que filmassem suas domésticas e, depois, editou o material. Foi duramente criticado por haver feito um filme cujas imagens não colheu, como se isso o desqualificasse. Só para lembrar, um grande diretor russo, Dziga-Vertov, utilizou-se muitas vezes de material já existente para fazer seus filmes que revolucionaram a montagem (e o documentário).

Para não deixar dúvida quanto à autoria, Mascaro desta vez foi seu diretor de fotografia, operando a câmera de Ventos de Agosto. Fazia parte do orçamento de guerrilha do filme, mas sedimentou a proposta estética. Mascaro desenvolveu um roteiro muito simples. Trabalhou com uma atriz profissional – “... mas a Dandara (de Morais) não fez muita coisa, só uma participação em Malhação” – e fez casting dos atores entre pescadores de Porto de Pedras. Escolheu Geová Manoel dos Santos, um artesão local. Aos atores, ele pedia muitas vezes que se exercitassem, criando o próprio diálogo.

Foi assim que Dandara e Geová levaram a caveira ao mais velho pescador da localidade e ele, surpreendentemente, reconheceu o morto pelo dente de ouro e contou sua história. A cena é uma das mais fortes de Ventos de Agosto, mas nada daquilo foi escrito nem ensaiado. A explicação do fato – do ‘método’ – talvez provoque reações e haverá algum crítico para dizer que Mascaro, depois de não filmar Domésticas, agora segue uma dramaturgia errática. Não é verdade. Por mais que o olhar de Mascaro sobre a comunidade seja antropológico, as básicas/minimalistas informações que ele fornece sobre seus personagens compõem uma linha dramática. “Não queria psicologizar. Queria que essas pessoas se expressassem pelo corpo. A própria Dandara é bailarina. Tudo nela se expressa pelo físico.”

Se o ponto de partida foi a profanação do cemitério pelas águas do mar, o filme versa sobre o quê? Mascaro não vacila. “Já que o registro das próprias vidas está se esvaindo, queria seguir um percurso oposto. Transformar o efêmero em permanente.” Mascaro conversa com o repórter pelo telefone. Está em Los Angeles, onde Ventos de Agosto é o único filme brasileiro na seleção internacional do festival promovido pelo American Film Institute. Mascaro conta que seu filme foi exibido num local mítico – o Grauman Chinese Theatre, no Hollywood Boulevard, cenário de pré-estreias de filmes que hoje estão integrados ao panteão do melhor da produção dos EUA.

Ventos de Agosto foi muito aplaudido, e teve direito a um movimentado Q&A, pergunta & resposta, após a projeção. O público queria saber tudo, da locação ao método. Esse interesse da plateia hollywoodiana por um filme não narrativo – no sentido tradicional – surpreendeu o diretor? “Não, porque o público do festival não é exatamente o da popcorn (pipoca com refrigerante). O festival do AFI tem a tradição de trazer o que há de mais avançado em pesquisas de linguagem para o público angeleno (de Los Angeles)." O repórter cita um filme que Mascaro talvez não tenha visto. Diz que Ventos de Agosto tem muito – tudo – a ver com O Segredo das Águas, da japonesa Naomi Kawase, que talvez tenha sido o melhor filme em Cannes neste ano (mesmo tendo perdido a Palma de Ouro para o turco Nuri Bilge Ceylan, de Winter Sleep). É a deixa para Mascaro surpreender o repórter.

“Pipocaram aqui algumas críticas comparando meu filme com o da Kawase. Fiquei curioso e procurei na internet. Encontrei O Segredo das Águas baixado e vi. Acho que são diferentes, mas entendo as conexões que vocês estão fazendo.” (Ele inclui o repórter entre os admiradores de ambos.) Para o diretor, seu filme é sobre permanência. “Por isso, a personagem quer ser tatuadora. É uma profissão totalmente improvável naquele meio, mas ela quer deixar sua marca indelével num mundo em que os vestígios estão sumindo, tragados pelo mar.” Mascaro cita a cena do diálogo sobre a pedra que respira. “Queria que o próprio filme tivesse essa porosidade. Tudo é muito tênue, depende do olhar do espectador. Mas creio ter deixado também a minha marca, transformando em ficção as questões que a descoberta daquele cemitério me produziu. E tudo foi feito sem pressa, com a veracidade daqueles lugares e pessoas. Foi estimulante ver o público de Hollywood entrar nessa viagem.”

VENTOS DE AGOSTO

Direção: Gabriel Mascaro. 

Gênero: Drama (Brasil/2014, 77 min.). Classificação: 14 anos.

Veja o trailer de 'Ventos de Agosto', e logo abaixo a crítica do filme:


Como uma tatuagem, o vento

É cinema sensorial, do corpo, por mais importantes que sejam certas falas

Na entrevista, Gabriel Mascaro conta que sua grande preocupação era não psicologizar Ventos de Agosto. Na maior parte das cenas, senão em todas, Dandara de Morais só ‘está’. Ela tira a roupa, toma banho de sol nua, faz sexo com o cortador de cocos que também é pescador, ajuda a avó que tem dificuldade de locomoção. Não verbaliza o amor pela avó. Basta seu carinho por ela. E, na cama improvisada sobre os cocos, o olhar perdido e a mão que alisa as costas do amante são suficientes para contar uma história.

Ventos de Agosto não é linear como boa parte – a maioria? – dos filmes que o público vê. Levanta questões, mais do que fornece respostas. Na verdade, todo o filme nasceu do impacto que teve sobre o diretor a descoberta de um cemitério invadido pelas águas do mar, numa praia de Alagoas. Minimalista como é, e sem psicologizar, o filme de Mascaro é bem completo ao traçar a trajetória e as motivações dos personagens. Mas o espectador tem de preencher os espaços, pegar uma informação aqui e colá-la a outra mais adiante.

É um cinema sensorial, do corpo, por mais importantes que sejam certas falas – da avó, do velho pescador que identifica a ossada. Uma investigação policial? Não propriamente, mas um dado curioso, essa forma como se exprimem a tradição e a modernidade. Os corpos dos jovens são formatados para o prazer, o gozo, a descoberta. Eles não precisam de palavras para se expressar. Os velhos falam, os jovens ouvem. É um filme sobre a permanência – a tatuagem que o diga –, mas o que importa é o segredo da água, do vento. / L.C.M.

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